São Paulo (SP) – 12/03/2026 – Durante décadas, enquanto a dengue avançava pelo Brasil e deixava milhões de pessoas doentes, uma pesquisadora trabalhava em silêncio nos laboratórios do Instituto Butantan com um objetivo claro: criar uma vacina nacional capaz de evitar mortes e reduzir drasticamente os casos da doença. O resultado desse esforço começou a chegar à população nas últimas semanas com a aplicação da primeira vacina 100% brasileira e de dose única contra a dengue.

À frente do projeto está a cientista Neuza Frazzati, bióloga e doutora em Biotecnologia, que construiu sua carreira desenvolvendo imunizantes voltados a doenças negligenciadas. Para ela, a vacina contra a dengue representa mais do que um avanço científico — é a concretização de uma missão pessoal.
“Todo mundo vem a essa vida com alguma missão. Acho que encontrei a minha: deixar uma vacina de dengue que possa amenizar o sofrimento das pessoas”, afirma.
Um problema histórico de saúde pública
Desde os anos 2000, a dengue causou mais de 18 mil mortes no Brasil e infectou cerca de 25 milhões de pessoas, pressionando o sistema de saúde e expondo a vulnerabilidade do país diante de surtos sucessivos. Por afetar principalmente países tropicais e em desenvolvimento, a doença foi historicamente tratada como negligenciada, com pouco investimento global em pesquisa.
A vacina desenvolvida no Butantan muda esse cenário. Batizada de Butantan‑DV, ela é a única vacina contra a dengue de dose única no mundo, com eficácia de cerca de 75% contra a doença e superior a 90% contra casos graves e hospitalizações, segundo estudos clínicos com mais de 16 mil voluntários acompanhados por anos.
A trajetória da pesquisadora
Neuza ingressou no Instituto Butantan ainda na década de 1980. No início da carreira, trabalhou com influenza e depois se envolveu em pesquisas para vacinas contra a raiva em humanos. O uso intensivo de animais nos testes a incomodava profundamente.
Esse incômodo se transformou em pesquisa. Após dez anos de trabalho, ela liderou o desenvolvimento de uma vacina contra a raiva produzida sem o uso de tecidos animais, utilizando células Vero — tecnologia que seria licenciada pela Anvisa em 2008 e renderia reconhecimento internacional.
Essa experiência foi decisiva anos depois, quando ela aceitou um desafio ainda maior: criar uma vacina eficaz contra os quatro sorotipos do vírus da dengue, sem provocar desequilíbrios na resposta imunológica e com aplicação em dose única.

O desafio da dengue
O projeto ganhou força entre 2006 e 2007, período marcado por forte aumento de casos e centenas de mortes no país. Neuza relata que chegou a duvidar da própria capacidade diante da complexidade do desafio, mas nunca desistiu.
O trabalho envolveu anos de cultivo viral, ajustes de formulação e testes rigorosos. Um dos maiores obstáculos foi garantir a estabilidade do imunizante em um país de dimensões continentais, com dificuldades logísticas e de refrigeração em muitos municípios.
A solução veio com a liofilização, técnica que transforma a vacina em pó, reconstituído apenas no momento da aplicação. Foram quatro anos de pesquisa em laboratório, mais de 200 experimentos e o trabalho de uma equipe que chegou a quase 50 profissionais.
Por que demorou a chegar à população
Embora a formulação estivesse pronta desde 2011, a vacina precisou passar por todas as etapas exigidas pela Anvisa, incluindo estudos de segurança, imunogenicidade e eficácia. O processo regulatório é longo, mas essencial para garantir que o imunizante chegue à população com segurança.
A aprovação ocorreu no fim de 2025. Em janeiro deste ano, as primeiras doses começaram a ser distribuídas.
Impacto no SUS
Até então, o SUS contava apenas com uma vacina contra a dengue importada, aplicada em duas doses, com custo elevado e oferta limitada. A Butantan‑DV representa uma mudança estrutural na estratégia de combate à doença.
Segundo estimativas, com 50% da população vacinada, o país pode registrar queda drástica no número de casos. Com cobertura ampla, é possível eliminar as mortes por dengue, que em 2025 chegaram a cerca de 1,7 mil.
Por enquanto, a vacinação segue um cronograma prioritário, mas o Ministério da Saúde prevê ampliar a aplicação para pessoas de 15 a 59 anos até o segundo semestre.
Ciência como legado
Hoje, ao ver a vacina sendo aplicada, Neuza se emociona. Para ela, o feito não é individual.
“Eu não conseguiria nada sozinha. Esse trabalho é de muitas mãos”, diz.
Depois de décadas dedicadas à ciência, ela resume o sentimento com simplicidade: “Chegar a essa fase da vida e pensar que fiz algo pelas pessoas é o maior reconhecimento que existe”.
Fonte: G1
