Como advogada, lido diariamente com a expectativa de quem aguarda, por vezes durante anos, o desfecho de um processo judicial. É justamente essa vulnerabilidade — a mistura de esperança com o cansaço da espera — que criminosos têm explorado de forma cruel através do Golpe do Falso Advogado. O crime não é apenas financeiro; é um ataque à confiança que sustenta a relação entre o cliente e seu defensor.
O roteiro do golpe é sofisticado e se aproveita da publicidade dos dados processuais. Os golpistas monitoram movimentações no Judiciário, identificam o nome do cliente e do advogado responsável e, em seguida, entram em contato via WhatsApp. Utilizando a foto de perfil do profissional e uma linguagem técnica convincente, eles anunciam uma suposta vitória: o alvará de pagamento está pronto, mas, por uma “exigência burocrática” de última hora, o cliente precisa quitar uma taxa de custas ou um imposto específico para liberar o dinheiro. A urgência é o combustível da fraude; eles pressionam para que o pagamento seja feito via Pix imediatamente, sob o risco de perda do benefício.
Se você se viu vítima dessa armadilha, a primeira e mais crucial medida é o acionamento imediato do Mecanismo Especial de Devolução (MED) junto à sua instituição bancária. Criado pelo Banco Central, esse recurso permite que o banco do pagador comunique o banco do recebedor sobre a fraude, possibilitando o bloqueio de valores remanescentes na conta do golpista. O tempo é o fator determinante aqui, pois as quadrilhas costumam pulverizar o dinheiro em diversas contas em questão de minutos.
Paralelamente à esfera bancária, a preservação de provas é o que garantirá o sucesso de uma futura investigação ou ação de reparação. É fundamental não apagar o histórico de conversas nem os comprovantes de transferência. O registro do Boletim de Ocorrência, que hoje pode ser feito online com facilidade, deve detalhar meticulosamente os dados da conta de destino e os números de telefone utilizados. Além disso, a comunicação com o seu advogado real é indispensável, pois o escritório precisa estar ciente do uso indevido de sua identidade para alertar outros clientes e tomar providências criminais.
É vital que o cidadão compreenda uma premissa básica do sistema jurídico brasileiro: não existe pagamento prévio de custas ou impostos para a liberação de valores judiciais. No Brasil, qualquer custa processual é paga via guia oficial de arrecadação do tribunal, e nunca através de Pix para contas de pessoas físicas ou jurídicas desconhecidas. Além disso, se o seu advogado entrar em contato por um número novo pedindo dinheiro urgente, desconfie. Interrompa a conversa e ligue para o número fixo ou compareça ao escritório físico que você já conhece.
A advocacia é pautada pela ética e pela transparência. Ao menor sinal de pressão ou solicitação de valores inesperados, o melhor caminho é o silêncio e a verificação. A informação correta e a reação rápida são as únicas ferramentas capazes de frear essa onda de golpes que tenta manchar a busca legítima pela justiça.
Trago algumas dicas para você se prevenir!
Checklist Antigolpe: Falso Advogado
- Desconfie de pedidos de Pix para liberar valores de processos.
- Confirme sempre a identidade do advogado por chamada de vídeo ou telefone fixo.
- Nunca pague guias que não sejam oficiais do Tribunal (DARE ou GRU).
- Verifique se o nome do beneficiário do Pix coincide com o do seu advogado ou escritório.
- Em caso de dúvida, não faça a transferência e vá pessoalmente ao escritório.
