São Paulo (SP) – 03/03/2026 – Casos de câncer de mama devem subir de 2,3 milhões (2023) para 3,5 milhões por ano até 2050. As mortes podem aumentar 44% no período, chegando a 1,4 milhão por ano. Países ricos reduziram em quase 30% a taxa de mortalidade desde 1990, enquanto nações pobres viram essa taxa praticamente dobrar. Entre mulheres de 20 a 54 anos, a incidência cresceu 29% desde 1990. No Brasil, a incidência aumentou 43% desde 1990, mas a mortalidade permaneceu praticamente estável (+2,6%).
O câncer de mama deve permanecer como o tumor mais comum entre mulheres nas próximas décadas — e de forma desigual. O estudo publicado na revista científica The Lancet Oncology reúne dados de 204 países e faz parte do Global Burden of Disease 2023, o maior levantamento epidemiológico do mundo.
Desigualdade que custa anos de vida
Embora países de baixa e média renda concentrem cerca de 27% dos novos casos globais, eles respondem por mais de 45% dos anos de vida saudável perdidos pela doença — indicador que combina morte precoce e incapacidade.
Lisa M. Force, professora assistente da Universidade de Washington e pesquisadora do IHME, afirma:
“O número desproporcional de anos de vida saudável perdidos sugere que mulheres nesses locais têm maior probabilidade de morrer prematuramente do que se estivessem em países de alta renda.”
Ela ressalta que serviços de saúde precisam ser disponíveis, acessíveis e financeiramente viáveis para reduzir o impacto do câncer de mama.
Países ricos reduzem mortes; países pobres avançam
A taxa de mortalidade padronizada por idade caiu quase 30% nas nações ricas nas últimas três décadas. Já em países de baixa renda, praticamente dobrou (99,3%).
Jonathan Kocarnik, pesquisador do IHME, explica:
“É razoável esperar que fatores como menor disponibilidade de rastreamento, tratamento e serviços de apoio tenham contribuído para essa diferença.”
Nos países de maior renda, programas organizados de rastreamento, diagnóstico precoce e acesso a terapias modernas ajudaram a reduzir mortes, mesmo com incidência elevada.
Casos crescem entre mulheres mais jovens
Desde 1990, a incidência entre mulheres de 20 a 54 anos subiu 29%, enquanto permaneceu relativamente estável entre mulheres com 55 anos ou mais.
Os pesquisadores estimam que 28% dos anos de vida saudável perdidos globalmente estejam associados a seis fatores de risco potencialmente evitáveis:
- consumo elevado de carne vermelha
- tabagismo
- glicemia alta
- obesidade
- álcool
- sedentarismo
Kocarnik afirma que políticas públicas voltadas a produtos reguláveis tendem a ser mais factíveis:
“Intervenções sobre fatores como tabaco e álcool costumam ser mais diretas do que enfrentar obesidade ou glicemia elevada.”
O estudo em números
- 2,3 milhões de casos em 2023
- 3,5 milhões projetados para 2050
- 764 mil mortes em 2023
- 1,4 milhão projetadas para 2050
- +29% de aumento em mulheres de 20 a 54 anos desde 1990
- 28% da carga global ligada a fatores modificáveis
Projeções e limites
As estimativas indicam que, se as tendências atuais se mantiverem, muitos países não alcançarão a meta da OMS de reduzir em 2,5% ao ano a mortalidade por câncer de mama até 2040.
Force ressalta que as projeções consideram tendências demográficas, fatores de risco e padrões históricos de mortalidade, mas não incorporam explicitamente possíveis inovações futuras em rastreamento ou tratamento.
Além disso, os autores reconhecem que lacunas em registros de câncer, especialmente na África Subsaariana e em partes do Sul da Ásia, aumentam a dependência de modelos estatísticos.
Brasil no cenário
O Brasil ocupa posição intermediária no panorama global. Entre 1990 e 2023, a taxa padronizada de incidência aumentou 43%, enquanto a taxa padronizada de mortalidade permaneceu praticamente estável (+2,6%). Em 2023, o país registrou 62,3 mil novos casos e 23,9 mil mortes por câncer de mama.
Diferentemente dos países de alta renda, que reduziram a mortalidade em quase 30% nas últimas três décadas, o Brasil ainda não conseguiu converter o avanço do diagnóstico em queda consistente nas mortes.
Se as projeções globais se confirmarem e os casos continuarem a crescer até 2050, o desafio para o país deixa de ser apenas ampliar o rastreamento. O ponto central passa a ser garantir que o aumento dos diagnósticos seja acompanhado por acesso rápido ao tratamento e redução das desigualdades regionais.
Fonte: The Lancet Oncology / Global Burden of Disease 2023 / g1
