Santiago (Chile) – 05/03/2026 – O Chile foi oficialmente reconhecido como o primeiro país das Américas a eliminar a hanseníase, segundo anúncio feito nesta quarta‑feira (4) pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em parceria com a Organização Pan‑Americana da Saúde (Opas). O reconhecimento ocorre após a confirmação de que não há transmissão local da doença no país há mais de três décadas.
Com a certificação, o Chile se torna apenas o segundo país do mundo a alcançar esse status, depois da Jordânia. A decisão foi baseada em uma avaliação conduzida por um painel independente de especialistas, convocado em 2025, que analisou dados epidemiológicos, sistemas de vigilância, protocolos de manejo de casos e estratégias de sustentabilidade do controle da hanseníase.

O diretor‑geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que a conquista demonstra que é possível eliminar doenças historicamente associadas à pobreza por meio de políticas públicas consistentes. Segundo ele, o caso chileno evidencia que liderança política, ciência, serviços de saúde inclusivos e diagnóstico precoce podem romper ciclos históricos de transmissão.
Três décadas sem transmissão local
A hanseníase, também conhecida como doença de Hansen, é uma infecção crônica causada principalmente pela bactéria Mycobacterium leprae. A doença afeta a pele, nervos periféricos, mucosas do trato respiratório superior e os olhos e, sem tratamento, pode provocar danos neurológicos permanentes, deformidades e incapacidades físicas.
No Chile, os primeiros registros da doença datam do final do século XIX, sobretudo na Ilha de Páscoa. No território continental, os casos sempre foram raros e foram progressivamente controlados ao longo do século XX por meio de medidas de isolamento e tratamento. Os últimos casos secundários na ilha foram registrados no fim da década de 1990.
O último caso autóctone — contraído dentro do território chileno — foi identificado em 1993. Desde então, as notificações registradas se referem exclusivamente a casos importados, sem transmissão local. Entre 2012 e 2023, por exemplo, foram registrados 47 casos no país, todos adquiridos fora do Chile.
Vigilância permanente
Mesmo com a ausência prolongada de transmissão, a hanseníase permaneceu como doença de notificação obrigatória no sistema de saúde chileno. O país manteve vigilância epidemiológica contínua e treinamento regular de profissionais para diagnóstico e tratamento.
No modelo adotado, a atenção primária funciona como porta de entrada para casos suspeitos, que são encaminhados a serviços especializados de dermatologia para confirmação diagnóstica e acompanhamento. O sistema prioriza intervenções precoces, prevenção de incapacidades e reabilitação, incluindo fisioterapia e suporte social.
Para a ministra da Saúde do Chile, Ximena Aguilera, o reconhecimento internacional reflete décadas de políticas públicas estruturadas. Segundo ela, o país seguirá mantendo vigilância ativa para evitar o retorno da doença.
Especialistas destacam que o período pós‑eliminação exige atenção contínua. Mesmo após a certificação, o Chile deverá continuar reportando dados à OMS, manter sistemas sensíveis de vigilância e preservar a capacidade clínica para identificar e tratar eventuais casos importados.
Doença ainda é um desafio global
Apesar de curável, a hanseníase ainda está presente em mais de 120 países e continua classificada como doença tropical negligenciada. Estima‑se que mais de 200 mil novos casos sejam diagnosticados anualmente no mundo.
A transmissão ocorre principalmente por contato próximo e prolongado com pessoas infectadas sem tratamento, geralmente por meio de secreções respiratórias. A doença não se espalha facilmente e pode ser curada com um regime de antibióticos administrado por um a dois anos.
Os sintomas mais comuns incluem manchas na pele com perda de sensibilidade, espessamento de nervos periféricos, fraqueza muscular e formigamento nas extremidades. Quando não tratada, a infecção pode levar à paralisia de mãos e pés, deformidades e cegueira.
Outro obstáculo histórico ao controle da hanseníase é o estigma social, que por séculos levou à exclusão e isolamento de pessoas afetadas, dificultando o diagnóstico precoce em diversas regiões do mundo.
No Brasil, a hanseníase permanece como um desafio relevante. O país ocupa a segunda posição mundial em número de novos casos, atrás apenas da Índia. Em 2025, foram registrados 20.632 novos casos, segundo dados oficiais. A doença afeta principalmente populações em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica, onde desigualdade social, acesso limitado a serviços de saúde e diagnóstico tardio favorecem a continuidade da transmissão.
Fonte: OMS / Opas / IFLScience / Galileu Saúde
