MANAUS, AM (15/07/2026) — O Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM) promoveu e organizou, nesta terça-feira (14), o I Fórum NR-1 na Prática, reunindo representantes da indústria, gestores empresariais, profissionais de Recursos Humanos, especialistas em Ergonomia e integrantes da Auditoria-Fiscal do Trabalho. A iniciativa, conduzida com a participação da Comissão de Recursos Humanos do CIEAM, teve como objetivo aproximar o setor produtivo das orientações técnicas e regulatórias relacionadas à NR-1, com foco nos desafios enfrentados pelas empresas para incorporar os fatores de risco psicossociais ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e aos respectivos programas de prevenção. A abertura institucional reforçou o papel do CIEAM na articulação entre empresas, entidades representativas e poder público. Participaram Lúcio Flávio Morais de Oliveira, presidente executivo do CIEAM; José Wilson Falcão, coordenador da Comissão de Recursos Humanos da entidade; Iuquio Ashibe, representante da Câmara Nipo-Brasileira; Dr. Diogo Cunha dos Reis Consultor em Ergonomia da Honda, Simone Santana Belchior Auditora Fiscal do Trabalho e Chefe do Setor de Fiscalização de Segurança e Saúde no Trabalho, Fabrícia Moura Gerente de Recursos Humanos – Lite-On Technology. A composição da mesa evidenciou a capacidade de mobilização do CIEAM e sua atuação na promoção de debates estratégicos para a competitividade, a segurança e a sustentabilidade das empresas instaladas na Zona Franca de Manaus.
O Fórum foi estruturado para aproximar as orientações normativas da realidade das empresas. Ao longo do encontro, os participantes discutiram como transformar as exigências da NR-1 em ações efetivas de prevenção, evitando que o gerenciamento dos riscos psicossociais se limite à produção de documentos ou à aplicação isolada de questionários.
A palestra principal foi ministrada pelo auditor fiscal do Trabalho Mauro Muller, mestre em Engenharia de Produção com ênfase em Ergonomia e integrante da comissão responsável pela revisão da NR-1. Muller também participou da construção das diretrizes que orientam o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e a abordagem dos fatores psicossociais relacionados ao trabalho.
Durante a apresentação, o auditor explicou que a preocupação com a organização do trabalho não é inteiramente nova. A NR-17 já tratava do tema, mas a atualização da NR-1 tornou mais explícita a necessidade de identificar, avaliar e controlar os fatores psicossociais presentes no ambiente laboral.
Um dos principais esclarecimentos foi que a norma não pretende avaliar a personalidade, os problemas familiares ou a condição clínica individual dos trabalhadores. O objeto da gestão são os fatores psicossociais relacionados ao trabalho, como sobrecarga, falta de apoio, baixa autonomia, comunicação deficiente, conflitos, assédio, metas incompatíveis com os recursos disponíveis e outras condições decorrentes da maneira como o trabalho é organizado.
A avaliação, portanto, não deve funcionar como diagnóstico de saúde mental dos funcionários. O foco precisa estar nas características das atividades, nas exigências impostas aos trabalhadores, nas relações profissionais, nos processos de gestão e nas condições oferecidas pela empresa.
Outro ponto destacado foi a inexistência de um questionário único e obrigatório para a avaliação dos riscos psicossociais. As organizações podem combinar diferentes procedimentos, como observação da atividade real, entrevistas, análise documental, oficinas, participação dos trabalhadores e instrumentos cientificamente validados.
Os questionários podem auxiliar na identificação de setores críticos e na caracterização da exposição, principalmente em empresas com grande número de trabalhadores. Entretanto, seus resultados não podem ser transferidos automaticamente para o inventário de riscos como se representassem, sozinhos, a classificação final do PGR.
A classificação deve considerar a relação entre o perigo identificado, a unidade ou o setor avaliado, as possíveis consequências, a probabilidade de ocorrência e a eficácia das medidas preventivas existentes. Também é necessário preservar a rastreabilidade dos dados e a fundamentação técnica das decisões adotadas.
Muller reforçou que o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais envolve um ciclo contínuo: eliminar ou evitar perigos, identificar aqueles que permanecem, avaliar e classificar os riscos, implementar medidas de prevenção, acompanhar os resultados e revisar as ações sempre que necessário.
O evento também diferenciou programas de promoção da saúde mental das medidas de prevenção exigidas no gerenciamento ocupacional.
Atendimento psicológico, acolhimento, atividades físicas e iniciativas de qualidade de vida podem ser importantes para os trabalhadores. No entanto, essas ações não substituem intervenções sobre a origem dos riscos. Quando o problema está relacionado à sobrecarga, à ausência de suporte ou a práticas inadequadas de liderança, por exemplo, a empresa deve atuar na organização do trabalho e não apenas oferecer assistência individual aos empregados.
Entre as possíveis medidas foram mencionadas a revisão da distribuição de tarefas, a melhoria dos canais de comunicação, a capacitação das lideranças, a reorganização de jornadas e pausas, a criação de espaços regulares de diálogo e a definição de procedimentos claros para que os trabalhadores obtenham apoio durante a execução das atividades.
A participação dos trabalhadores e da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio também foi apontada como essencial. São os trabalhadores que podem informar se as medidas foram realmente implementadas, se permanecem funcionando e se precisam ser ampliadas ou corrigidas.
Após a palestra magna, o evento promoveu um painel técnico com a participação de Mauro Muller; da auditora fiscal do Trabalho Simone Santana Belchior, chefe do Setor de Fiscalização de Segurança e Saúde no Trabalho; e do consultor em Ergonomia da Honda Diogo Cunha dos Reis. A mediação foi realizada por Fabrícia Moura, gerente de Recursos Humanos da Lite-On Technology.
As perguntas encaminhadas pelo público abordaram os critérios da fiscalização, a escolha das ferramentas de avaliação, a responsabilidade pela condução do processo, a distinção entre problemas pessoais e ocupacionais e o papel de setores como Recursos Humanos e Serviço Especializado em Segurança e Medicina do Trabalho.
Os debatedores explicaram que a responsabilidade pelo gerenciamento permanece sendo da própria empresa. A organização pode contar com RH, SESMT, profissionais de Ergonomia, Psicologia, Medicina do Trabalho, Engenharia, consultorias externas e outros especialistas, desde que as pessoas selecionadas tenham qualificação compatível com a complexidade das atividades e dos riscos existentes.
Não há, segundo os participantes, uma função normativa específica denominada “implementador da NR-1”. A recomendação é que o trabalho seja multidisciplinar, integrado às áreas da empresa e respaldado pela alta administração.
A discussão possui importância direta para a Zona Franca de Manaus, que reúne empresas nacionais e multinacionais, diferentes modelos de produção, cadeias de fornecedores e milhares de profissionais submetidos a variados contextos de trabalho.
Em um ambiente industrial competitivo e conectado a cadeias globais, a gestão dos riscos psicossociais passa a ter relação não apenas com o cumprimento da legislação, mas também com a continuidade operacional, a produtividade, a retenção de profissionais, a prevenção de afastamentos e a segurança jurídica das organizações.
O apoio da alta liderança foi apresentado como condição indispensável para que o gerenciamento produza resultados. A prevenção exige recursos, tempo, equipes capacitadas, comunicação transparente e disposição para revisar práticas organizacionais que possam contribuir para conflitos, sobrecarga ou adoecimento.
Nos pronunciamentos finais, a Zona Franca de Manaus foi destacada como um ambiente capaz de conciliar competitividade industrial, inovação e valorização das pessoas. O entendimento apresentado foi o de que o Polo Industrial pode assumir posição de referência nacional na construção de ambientes de trabalho mais seguros, dignos e sustentáveis.
A Neuron Health Tech participou do Fórum acompanhando as discussões técnicas e também como expositora da plataforma NR-PsicoRisk, solução tecnológica desenvolvida para apoiar empresas na implementação da NR-01 e no gerenciamento dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho.
Em seu espaço de exposição, a equipe apresentou as funcionalidades da plataforma a gestores, profissionais de Recursos Humanos, especialistas em Segurança e Saúde no Trabalho e representantes das organizações presentes no evento.
A NR-PsicoRisk estrutura diferentes etapas do processo, incluindo levantamento de documentos da empresa, entrevista institucional, entrevistas com os responsáveis pelos setores, coleta digital das percepções dos trabalhadores, painel de acompanhamento e análise técnica dos resultados.
A plataforma conta com questionário digital composto por 60 perguntas, distribuídas entre 12 categorias de riscos psicossociais. O instrumento pode ser respondido por computador ou celular, com coleta anônima e mecanismos de segurança e proteção dos dados.
A proposta apresentada pela empresa não se limita ao questionário. Os dados coletados são integrados às informações institucionais, às entrevistas setoriais, às características das atividades e às medidas de prevenção já existentes. A plataforma organiza a análise por setor e apoia a elaboração do inventário de riscos e do plano de ação.
A classificação utiliza uma matriz baseada na relação entre probabilidade e severidade, considerando as condições identificadas e as medidas preventivas existentes. Os planos de ação são estruturados pelo modelo 5W2H, com definição das ações, responsáveis, prazos, formas de execução e critérios de acompanhamento.
Outro recurso apresentado foi o Book de Evidências, destinado ao registro cronológico das intervenções realizadas. O módulo permite reunir atas, relatórios, fotografias, documentos e outros registros que comprovem a execução das ações, contribuindo para a rastreabilidade e para o acompanhamento contínuo do processo.
A presença da Neuron Health Tech no Fórum demonstrou como a tecnologia pode auxiliar as empresas da Zona Franca de Manaus a organizar dados, identificar prioridades, planejar intervenções e manter evidências das medidas adotadas, sem substituir a análise técnica, a participação dos trabalhadores e a responsabilidade organizacional prevista na NR-1.
O I Fórum NR-1 na Prática encerrou-se com a defesa de uma atuação conjunta entre empresas, trabalhadores, instituições representativas e órgãos públicos.
A principal mensagem do encontro foi que a gestão dos riscos psicossociais não deve ser encarada como uma obrigação burocrática ou como simples aplicação de pesquisa de clima. Trata-se de um processo permanente de identificação das condições de trabalho, avaliação dos riscos, intervenção sobre as causas e acompanhamento da eficácia das medidas.
Para o Polo Industrial de Manaus, o avanço dessa agenda representa uma oportunidade de fortalecer a governança, promover ambientes organizacionais mais saudáveis e demonstrar que competitividade e proteção aos trabalhadores podem fazer parte da mesma estratégia de desenvolvimento.
Fonte: José Humberto da Silva Filho
