Brasília – 26/02/2026 – Um comprimido oral diário que combina os antirretrovirais bictegravir e lenacapavir (BIC/LEN) mostrou-se tão eficaz quanto os tratamentos convencionais contra o HIV, segundo estudo internacional de fase 3 publicado na revista The Lancet. A pesquisa, liderada por especialistas da Queen Mary University of London, aponta que o esquema experimental pode simplificar a rotina de pacientes sem comprometer a segurança ou o controle da infecção.
Atualmente, métodos de controle da doença exigem regimes que chegam a 11 comprimidos por dia, dificultando a adesão. O novo regime, administrado uma vez ao dia, manteve a supressão viral em 96% dos voluntários durante 48 semanas, sem surgimento de novas mutações.
Como funciona o BIC/LEN
Segundo a professora Chloe Orkin, o bictegravir é um inibidor da integrase já recomendado em diretrizes globais, com alta barreira à resistência. O lenacapavir é o primeiro inibidor de capsídeo da sua classe, capaz de interromper a replicação do HIV em múltiplos estágios críticos.
Além da eficácia, o estudo identificou vantagens adicionais, como menor aumento do colesterol e maior facilidade de adesão diária.
Perfil dos participantes
O ensaio clínico incluiu mais de 550 adultos em 15 países, todos com carga viral indetectável, mas em regimes complexos de dois a 11 comprimidos diários. Cerca de 40% precisavam tomar remédios mais de uma vez ao dia. A idade média foi de 60 anos, variando entre 22 e 84 anos, e muitos tinham outras condições de saúde, como doenças cardíacas ou renais, além de histórico de resistência a tratamentos anteriores.
Benefícios e riscos
O infectologista Daniel Paffili Prestes explica que o HIV ataca principalmente os linfócitos T CD4, células essenciais à defesa do organismo. Sem tratamento, a infecção pode evoluir para a aids, tornando o sistema imunológico vulnerável a infecções graves.
Segundo ele, a terapia antirretroviral fornecida pelo SUS bloqueia a multiplicação do vírus e garante expectativa de vida semelhante à da população geral. Quando a carga viral se torna indetectável, o vírus não é transmitido sexualmente — conceito conhecido como Indetectável = Intransmissível.
Prestes ressalta que o lenacapavir é eficaz mesmo contra vírus multirresistentes, mas a resposta depende do perfil individual, sendo indispensável o teste genotípico. Entre os efeitos adversos mais comuns estão cefaleia, náuseas, insônia (bictegravir) e diarreia leve ou reações locais (lenacapavir). Pacientes idosos ou com outras doenças devem ser acompanhados quanto à função renal e possíveis interações medicamentosas.
Pílula única no Brasil
No Brasil, já existem esquemas modernos em dose fixa única diária, disponíveis pelo SUS e na rede privada, como o Biktarvy (três antirretrovirais em um comprimido) e o Dovato (dois antirretrovirais). Esses tratamentos são eficazes e amplamente utilizados, mas não incluem o lenacapavir. A combinação específica BIC/LEN ainda está em fase de estudos e não foi aprovada para uso comercial no país.
Mais que um ganho técnico
Especialistas destacam que a simplificação do regime não é apenas uma questão farmacológica. Para muitas pessoas vivendo com HIV, tomar vários comprimidos ao longo do dia funciona como um lembrete constante da sorologia, reforçando sentimentos de estigma, medo e ansiedade. Um comprimido único diário significa menos momentos de exposição, menos preocupação com horários múltiplos e maior sensação de autonomia e normalidade.
Ensaios adicionais estão em andamento para avaliar a segurança e eficácia a longo prazo do BIC/LEN. Se aprovado, o comprimido único poderá reduzir a quantidade de remédios diários e facilitar a rotina de milhares de pessoas que vivem com HIV.
Fonte: Correio Braziliense / The Lancet
