Manaus, AM – 07/02/2026 – “Não consigo entender como as pessoas dizem que existe uma redução do feminicídio se, mesmo com uma lei que vai completar 20 anos, os crimes só aumentam”, relatou o escritor e professor Daniel Guimarães, especialista em violência doméstica e crimes contra a dignidade sexual de crianças. Em passagem pelo Amazonas, o educador destacou, com exclusividade, dados locais e nacionais sobre crimes contra mulheres e crianças.

“Temos vivenciado um aumento vertiginoso no número de feminicídios. O Amazonas está entre o terceiro e o quarto lugar no ranking nacional desse tipo de crime. E, por mais que o Governo Federal tenha implantado programas de prevenção e redução, a sociedade ainda apresenta certa tolerância, fruto do machismo patriarcal que dominou o país por cerca de 300 anos. Uma lei com 20 anos não consegue, sozinha, derrubar esse tipo de situação”, disse Guimarães.
Segundo ele, os brasileiros são criados sob a pedagogia da violência, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, onde a punição física ainda é recorrente. “Crescemos ouvindo frases como: ‘você vai levar uma surra para aprender’. Isso está enraizado no nosso cotidiano desde a infância e, por isso, infelizmente, o Brasil é o terceiro país com mais casos de violência contra crianças”, afirmou.
Herdeiros da colonização
Guimarães pontua que a colonização portuguesa foi trágica para a história brasileira, incentivando guerras contra etnias como Mura, Munduruku e Sateré-Mawé, deixando inúmeras vítimas e promovendo atrocidades contra meninas e mulheres.
“Passei um período estudando essas guerras e essas etnias. Estive recentemente em Parintins, que era habitada por indígenas que retaliavam os portugueses. Desde a colonização, nossos rios viram muito sangue na Amazônia”, destacou o professor.
Prevenção
O especialista explica que o único caminho para reduzir feminicídios é a prevenção, por meio do diálogo com jovens e adolescentes, já que meninas estão sendo assassinadas por seus primeiros namorados.
“Tenho desenvolvido pesquisas no Norte e Nordeste sobre meninas/adolescentes assassinadas, principalmente por integrantes de facções criminosas que não aceitam separação ou término de relacionamentos. Temos vivenciado e visto, no Amazonas e em Roraima, assassinatos de meninas. São crimes bárbaros e cruéis, com decapitação e esquartejamento. Precisamos tentar reduzir isso por meio da prevenção e do diálogo”, comentou.
Guimarães ressaltou que vem escrevendo livros, entre eles “A luta contra a violência doméstica no Brasil: Um panorama histórico e atual”, em parceria com Vitória Vieira, voltados à conscientização e capacitação de professores e profissionais de segurança pública, como policiais militares e civis.
“Já realizei palestras em Parintins e em Roraima. Também retornarei no período do Carnaval para desenvolver trabalhos em municípios como Maués e Tabatinga, onde os casos de violência doméstica têm aumentado”, frisou.
Números
Conforme informações do pesquisador, somente em Manaus, no último ano, foram registradas mais de 10 mil solicitações de medidas protetivas de urgência para mulheres, número confirmado pela Polícia Civil do Amazonas, que chega a 12 mil casos.
“É um número muito alto para uma metrópole. No interior do estado, houve aumento superior a 36% nos casos de violência contra a mulher. A violência doméstica não tem classe social: temos acompanhado casos envolvendo policiais e advogados, profissionais que deveriam combater esse tipo de crime e que cometeram violência, hoje no sistema prisional do Amazonas”, explicou.
Machismo
Para Guimarães, o sentimento de posse, a falta de diálogo e empatia, além do machismo, são fatores determinantes para os casos de feminicídio.
“Existe uma frase que sempre uso em minhas palestras: ‘Onde não há diálogo, há violência’. Em qualquer relação, intrafamiliar, afetiva, casamento ou namoro, independentemente de gênero, se não houver diálogo, haverá violência. Essa violência é o ápice do machismo e do egoísmo, quando as pessoas acreditam que podem dominar o corpo da mulher. Durante 300 anos, isso esteve presente nos livros de história e na escravidão, marcada por extrema violência”, afirmou.
Cárcere privado
Nos estudos realizados em Roraima, Guimarães identificou crimes graves de cárcere privado e abusos sexuais contra mulheres venezuelanas.
“Minha primeira ida a Roraima foi há 15 anos, quando já desenvolvia trabalhos sobre violência doméstica. O estado sempre esteve entre os que apresentam altos índices de violência sexual contra crianças e adolescentes, mas a imigração venezuelana trouxe situações ainda mais graves, como exploração sexual, trabalho forçado, cárcere privado e abusos dentro de lares de criminosos”, concluiu.
Mais dados
Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) mostram que o Amazonas apresentou a menor taxa de feminicídios do país em 2025, com 0,46 casos para cada 100 mil habitantes, abaixo da média nacional de 0,69. Em números absolutos, o estado registrou 20 casos em 2025, o menor desde 2021.

O Atlas da Violência 2025 aponta que entre 2022 e 2023, o número de homicídios de mulheres no Brasil cresceu 2,5%, com média nacional de 10 mulheres mortas por dia. No Amazonas, os casos de feminicídio aumentaram 26% entre 2023 e 2024, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Crimes exemplares entre 2024 e 2025
- 9 de dezembro de 2025: Izabel Cristina Lopes Simplício, encontrada morta no quilômetro 20 da AM-010, ramal Matrinxã, zona Norte de Manaus. Morta por espancamento e estrangulamento; companheiro José Brito apontado como autor.

- 24 de setembro de 2025: Homem de 43 anos preso em Boca do Acre pelo crime de ocultação de cadáver da ex-companheira e posse ilegal de arma. Crime ocorreu dia 22.
- 28 de julho de 2025: Telma da Silva Rabelo Valente, 31 anos, assassinada com mais de dez golpes de faca na zona Leste de Manaus. Marido é apontado como autor.

- 30 de novembro de 2024: Nariane Caresto Garcia de Sena, 24 anos, assassinada no bairro Petrópolis, zona Sul. Ex-companheiro Rosinaldo Kennedy, 20 anos, foi autor do crime.

- 18 de junho de 2024: Motorista Jean Carlos, 43 anos, matou a esposa a facadas e depois suicidou-se em bairro Colônia Terra Nova, zona Norte.
Fonte: Portal A Crítica
