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‘Guru’ criado por IA acumula milhões de seguidores e vende “jornada da cura” nas redes sociais

Fenômeno levanta debate sobre espiritualidade digital e uso da inteligência artificial em práticas religiosas.

Foto: Reprodução/Instagram

Brasília – 03/02/26 – A presença da inteligência artificial no campo da fé e da espiritualidade tem ganhado novas formas e seguidores. Um dos casos mais comentados é o de Yang Mun, personagem criado por IA que se apresenta como um mestre espiritual chinês em templos virtuais. Sem qualquer aviso de que se trata de uma simulação, ele já reúne 3,5 milhões de seguidores no Instagram, onde compartilha conselhos e ensinamentos.

Religião criada por IA

O fenômeno surgiu em plataformas como o Moltbook, fórum em que interações são conduzidas por inteligências artificiais. Ali nasceu o chamado “Crustafarianismo”, com texto sagrado (“Livro do Molt”), rituais e valores próprios. Embora visto como curiosidade, o caso mostra como sistemas autônomos podem gerar narrativas religiosas.

O “guru” digital

Yang Mun não apenas publica vídeos, mas também comercializa conteúdos pagos. Mais de 800 pessoas já participaram da chamada “jornada da cura”, vendida por US$ 49 (cerca de R$ 257), e 7,5 mil adquiriram e-books por US$ 10 (cerca de R$ 52). Nos comentários, seguidores agradecem emocionados, com símbolos de oração e corações.

Outros personagens espirituais de IA

A popularização de programas que geram vídeos e vozes realistas tem multiplicado figuras semelhantes. No Brasil, surgiu Hiraki de Jesus, apresentado como o primeiro cantor gospel criado por IA, com quase 1 milhão de seguidores. Ele publica videoclipes de louvores produzidos digitalmente.

Foto: Reprodução IA

Debate acadêmico

Para a antropóloga Carly Machado (UFRRJ), a IA desafia o campo da produção de verdade, tradicionalmente dividido entre ciência e religião. Ela observa que não surpreende ver pessoas atribuindo sentido espiritual a criações artificiais:

“O grande salto humano é a produção de significado. As pessoas estão procurando dar sentido à sua vida.”

A professora Dora Kaufman (PUC-SP) lembra que sistemas como o ChatGPT podem emular linguagem religiosa, mas estão sujeitos a erros e “alucinações”.

Iniciativas institucionais

Igrejas também têm adotado a tecnologia. A Igreja Adventista do Sétimo Dia lançou o 7chat.ai, chatbot que responde sobre a Bíblia em vários idiomas. Em 2024, uma capela na Suíça criou o avatar “AI Jesus”, que passou dois meses em um confessionário e conversou com 900 visitantes. Já a Igreja Católica publicou em 2025 o documento Antiqua et Nova, reforçando que a IA não deve ser divinizada, mas usada como instrumento complementar.

Religiões afro-brasileiras e IA

Ferramentas digitais também têm sido usadas para representar orixás em vídeos e músicas. Páginas como @umbanda_IA e @orixas_da_ia reúnem milhares de seguidores. O umbandista Allan Souza, criador da página “Vozes de Aruanda”, utiliza IA para gerar músicas a partir de textos do terreiro, alcançando 134 mil ouvintes mensais no Spotify.

Foto: Reprodução IA

Reflexão final

Para o pesquisador Hugo Brandão (IFAL), a IA não possui fé nem imaginação, mas pode produzir espiritualidade ao oferecer sentido às pessoas:

“A Inteligência Artificial não faz rito, não imagina e não tem fé. A religião é um recurso humano. Mas pode produzir espiritualidade a partir do significado que gera para o ser humano.”

Fonte: O Globo

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