São Paulo – 10/02/2026 – Durante décadas, a maioria dos casos de demência em idosos foi tratada como Alzheimer. Hoje, já se sabe que até um em cada cinco casos tem outra origem: a LATE, condição associada ao envelhecimento avançado que afeta áreas do cérebro ligadas à memória.
Formalmente descrita em 2019 por pesquisadores da Universidade do Kentucky, nos Estados Unidos, a LATE — sigla para Encefalopatia TDP-43 Relacionada à Idade com Predomínio Límbico — passou a esclarecer um impasse recorrente na prática médica: pacientes com sintomas típicos de Alzheimer não apresentavam resultados positivos nos exames específicos da doença.
Segundo o neurologista Iron Dangoni, do Hospital Israelita Albert Einstein em Goiânia, “clinicamente, a LATE costuma causar um quadro de declínio cognitivo progressivo, com predomínio de déficits de memória episódica, muito semelhante à doença de Alzheimer”.
Diferenças biológicas
Na origem, as duas condições não são iguais. O Alzheimer é marcado pelo acúmulo das proteínas beta-amiloide e tau, enquanto a LATE envolve depósito anormal da proteína TDP-43 em regiões límbicas do cérebro, como hipocampo e amígdala, diretamente ligadas à formação e consolidação da memória.
Reconhecer a LATE é fundamental para evitar diagnósticos imprecisos, alinhar expectativas sobre evolução clínica e adequar decisões terapêuticas.
Desafios diagnósticos
Detectar a LATE em vida ainda é difícil. O diagnóstico definitivo é neuropatológico, feito após a morte do paciente. Diferentemente do Alzheimer, que já conta com exames de imagem e biomarcadores específicos, a LATE não possui ferramentas diretas na prática clínica.
O neurocientista Eduardo Zimmer, da UFRGS, explica: “Como os sintomas são muito parecidos com a doença de Alzheimer, atualmente não é possível saber se um indivíduo que apresenta acúmulo de amiloide e tau também tem depósito de TDP-43”.
Há pesquisas em andamento para mudar esse cenário. Um ensaio clínico previsto para novembro de 2026 testa uma molécula capaz de detectar TDP-43 em exames de imagem, desenvolvida pela farmacêutica suíça AC Immune. Resultados iniciais em primatas foram promissores.
Em janeiro de 2025, critérios clínicos para distinguir casos prováveis e possíveis de LATE foram publicados na revista Alzheimer’s & Dementia. O modelo combina sintomas, exames de imagem e ausência de biomarcadores de Alzheimer.
No Brasil, o reconhecimento ainda é indireto, baseado em idade avançada, perfil clínico e exclusão de Alzheimer por biomarcadores quando disponíveis. Dangoni ressalta que há crescente conscientização entre especialistas, especialmente em centros acadêmicos.
Zimmer destaca o trabalho do Biobanco para Estudos do Envelhecimento da USP, que analisa alterações associadas a proteínas como amiloide, tau e TDP-43. “Ainda vamos ter muita informação sobre a população brasileira a partir desse trabalho”, afirma.
Tratamento e evolução clínica
Em pacientes com LATE isolada, o declínio cognitivo tende a ser mais lento do que no Alzheimer. Os sintomas aparecem mais tarde e avançam gradualmente. Quando as duas condições coexistem, a progressão é mais rápida e os comprometimentos cognitivos são mais severos.
Estudo de 2023 mostrou que pessoas com LATE sem associação com Alzheimer apresentam melhor desempenho cognitivo ao longo do tempo. Já nos casos em que ambas se sobrepõem, o declínio é acelerado, configurando quadros graves de demência na velhice.
O primeiro ensaio clínico específico para LATE está em andamento na Universidade do Kentucky e testa o nicorandil, medicamento usado para tratar angina. A hipótese é que o fármaco possa prevenir a esclerose hipocampal do envelhecimento. O estudo, com 64 participantes, deve ser concluído em novembro de 2026.
Pesquisadores também avaliam se medicamentos já aprovados para Alzheimer podem ter algum efeito sobre sintomas da LATE, mas até agora não há evidências clínicas que confirmem essa hipótese.
Impacto no entendimento da demência
Para o neurologista Iron Dangoni, o reconhecimento da LATE vem alterando a interpretação do envelhecimento cerebral. “Para o paciente, isso significa diagnósticos mais precisos e uma comunicação mais honesta sobre prognóstico e expectativas terapêuticas. Também abre caminho para novos biomarcadores e tratamentos específicos, além de melhorar o desenho dos estudos clínicos”, afirma.
Fonte: Agência Einstein / CNN Brasil
