Brasília (DF) – 11/03/2026 – A Polícia Federal instaurou inquérito para investigar uma trend nas redes sociais conhecida como “caso ela diga não”, que passou a circular com conteúdos que incitam violência contra mulheres, associando agressões físicas a situações de rejeição afetiva. A apuração foi aberta após pedido formal da Advocacia‑Geral da União (AGU), apresentado no Dia Internacional da Mulher, em 8 de março.
Os vídeos, que chegaram a ser publicados no TikTok e posteriormente removidos, mostravam jovens simulando chutes, socos e facadas contra manequins que representariam mulheres. As encenações eram acompanhadas de frases que sugeriam retaliação violenta diante de uma recusa, o que motivou o acionamento das autoridades.
A notícia‑crime foi encaminhada pela Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia (PNDD), órgão vinculado à AGU, que identificou ao menos quatro perfis envolvidos na disseminação desse tipo de conteúdo.
Risco coletivo e crimes em tese
Segundo a AGU, a circulação sistemática de material misógino nas plataformas digitais representa ameaça concreta aos direitos fundamentais das mulheres, mesmo sem uma vítima individual identificada, por atingir toda a coletividade feminina e fragilizar políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero.
Para o procurador nacional Raphael Ramos, os vídeos podem configurar estímulo à prática de crimes previstos no Código Penal, como feminicídio, lesão corporal, ameaça, perseguição, violência psicológica contra a mulher, além de incitação ao crime e apologia criminosa.
O pedido de investigação também integra as ações previstas no Pacto Brasil pelo Enfrentamento do Feminicídio, firmado entre os Três Poderes em fevereiro de 2026, que inclui medidas específicas contra a violência digital dirigida a mulheres e meninas.
Repercussão e discurso misógino
A repercussão da trend nas redes sociais levou usuários e especialistas a associar o conteúdo a comunidades virtuais ligadas ao discurso misógino, frequentemente identificadas pelo rótulo redpill — grupos que disseminam visões hostis às mulheres, sobretudo em debates sobre relacionamentos e papéis de gênero.
A Polícia Federal deve apurar a responsabilidade dos envolvidos, a dinâmica de disseminação dos vídeos e a eventual omissão ou falha das plataformas no controle desse tipo de conteúdo.

Fonte: Migalhas / Folha de São Paulo
