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Rinovírus pode se esconder em tecidos e se multiplicar sem causar sintomas

Pesquisa da USP mostra que amígdalas e adenoides funcionam como reservatórios silenciosos do vírus

(Foto: Agência Brasil)

São Paulo (SP) – 23/02/2026 – Estudo conduzido na Universidade de São Paulo (USP) revela que tecidos como amígdala e adenoide podem servir como “esconderijo” para o rinovírus, causador do resfriado e responsável pela maior parte das infecções respiratórias do mundo.

Conduzido com amostras de 293 crianças que passaram por cirurgia para a retirada desses tecidos, o trabalho mostrou que o patógeno consegue infectar células de defesa conhecidas como linfócitos e lá permanecer por longos períodos sem provocar sintomas, podendo eventualmente ser transmitido para outras pessoas de forma insuspeita.

“O vírus tem um encontro marcado com a população infantil. Todos os anos, cerca de duas ou três semanas depois que as aulas começam em regiões de clima temperado, ocorre um surto de rinovírus. E as crianças levam para os pais e avós. A gente sempre teve essa dúvida: o que tem a ver o início das aulas? Ora, juntam-se crianças em um espaço fechado, e algumas delas com o vírus na garganta podem semear o surto na escola mesmo estando assintomáticas”, comenta o rinovirologista Eurico de Arruda Neto, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) e coordenador da investigação, apoiada pela FAPESP (projetos 13/06380‐0, 13/16349‐2 e 17/25654‐4).

Como explica o pesquisador, já se sabia que o rinovírus infecta o epitélio do nariz e da garganta (a camada mais superficial da mucosa), sequestra o maquinário celular para se multiplicar e, terminado esse trabalho, provoca o rompimento da célula hospedeira para liberar sua progênie apta a gerar novas infecções. Por esse motivo os cientistas o consideram um vírus lítico (que causa a lise ou ruptura celular). Esse ciclo rápido e destrutivo chama rapidamente a atenção do sistema imune, que, na maioria dos casos, elimina o vírus do organismo em torno de cinco a sete dias.

A grande novidade do trabalho foi mostrar que, além do epitélio, o rinovírus consegue atingir camadas mais profundas dos tecidos das amígdalas e adenoides e infectar linfócitos dos tipos B (produtores de anticorpos) e T CD4 (que atuam como maestros da resposta imunológica local). Essas células têm vida longa e guardam a “memória” do sistema imune. Em vez de matá-las, o rinovírus permanece dentro delas por períodos longos de tempo, em um estado de persistência similar à latência que ocorre com os vírus herpes, HPV e citomegalovírus.

“As amostras que analisamos são de crianças operadas porque sofriam com ronco, apneia do sono ou infecções recorrentes relacionadas com a hipertrofia de amígdalas e adenoides. No momento da cirurgia elas estavam obrigatoriamente sem sintomas. Ainda assim, detectamos o rinovírus em uma quantidade bem grande de participantes”, conta Arruda.

Além das amígdalas e adenoides, também foi analisada a secreção nasal das crianças. Segundo dados divulgados no Journal of Medical Virology, o vírus estava presente em ao menos um dos três locais (amígdala, adenoide ou secreção) em 46% dos voluntários. Também foram observados nesses tecidos a presença de proteínas virais e de outros indícios de que o rinovírus estava se multiplicando e, portanto, apto a infectar outra pessoa.

Fonte: Agência FAPESP / Acrítica

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