O novo filme estrelado por Gabriel Leone apresenta um protagonista em crise, conduzindo o espectador por uma narrativa densa, marcada por diálogos longos e cheios de lacunas. Logo na abertura, uma longa conversa entre o personagem e seu pai estabelece o tom da obra: um desconforto existencial que atravessa toda a trama.
A tensão inicial se intensifica logo após o pai indicar que o filho vá para Armação, uma pequena cidade litorânea onde viveu o avô. Nesse momento, o pai anuncia sua decisão de tirar a própria vida. A partir daí, o filme nos coloca diretamente na perspectiva do protagonista — um homem perdido, que sequer compreende a si mesmo, enquanto o público tenta, junto a ele, decifrar sua identidade.
Em Armação, um novo diálogo significativo, desta vez com Viviane, interpretada por Ana Hartmann. A personagem traz à tona um episódio marcante do passado de Gabriel e oferece a ele uma chance de redenção. No entanto, a resposta crua e direta do protagonista evidencia sua incapacidade de lidar com o passado, e com o presente.
A narrativa ganha contornos mais sombrios quando Gabriel passa a se depara com a história de seu avô, com quem compartilha uma impressionante semelhança física. O avô foi morto pelos próprios moradores da cidade, um evento que ecoa no presente. Como um estranho em um ambiente aparentemente harmônico, Gabriel desperta desconfiança e rejeição, tornando-se alvo de uma comunidade que tenta expulsá-lo.
Sua presença, no entanto, funciona como um catalisador de coisas ruins. Como se estivesse sob uma maldição, o ciclo de violência e repulsa começa a se repetir. Aos poucos, cena após cena, cresce entre os habitantes a mesma ojeriza antes direcionada ao avô.
A ironia do discurso dos moradores que insistem em chamar Armação de “um paraíso na Terra” se evidencia com a introdução de Jasmin, vivida por Thainá Duarte. A jovem, que inicia um relacionamento com Gabriel, sonha em deixar a cidade e o convida a partir com ela. Contudo, também revela a presença de um “fantasma” profundamente ligado ao passado do protagonista.
O filme se destaca por sua fotografia marcante, que privilegia tons frios e azulados, mesmo em cenas ensolaradas. O baixo contraste reforça uma atmosfera de apatia e exaustão, refletindo o estado emocional de Gabriel. Destaca-se também a sequência oníricas subaquáticas, quando o personagem aparece nu diante de uma baleia, em imagens que evocam simultaneamente liberdade e opressão. A escuridão e a sensação de falta de ar criam uma experiência sensorial intensa, quase claustrofóbica.
Na pré-estreia, o diretor Aly Muritiba revelou que a adaptação do romance de Daniel Galera, realizada em parceria com a roteirista Jessica Candal, foi um processo longo. Segundo ele, o tempo foi essencial não apenas para o amadurecimento do projeto, mas também para que Gabriel Leone alcançasse a idade e a aparência ideais para interpretar o personagem.
O resultado é um filme que mergulha profundamente nas complexidades da identidade, do passado e das marcas que insistem em se repetir.
