São Paulo (SP) – 27/02/2026 – A Livraria Cultura, um dos nomes mais tradicionais do mercado livreiro paulista, encerrou definitivamente suas atividades neste ano, após a confirmação da falência pela 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. A decisão foi comunicada à empresa neste mês, e o passivo total atualizado chega a R$ 288,3 milhões, segundo apuração do Estadão/Broadcast.
Procurado, o diretor‑presidente da rede, Sérgio Herz, da família fundadora, não se manifestou até a publicação da reportagem.
A empresa chegou a operar 16 lojas em diferentes capitais, com presença em cidades como Rio de Janeiro, Brasília, Recife e Porto Alegre. Nos últimos anos, tentava manter operações em formato reduzido, com unidades em Higienópolis, Pinheiros e Vila Leopoldina, na capital paulista. Todas essas lojas foram desativadas entre o fim de 2025 e o início de 2026. A plataforma de comércio eletrônico da empresa também saiu do ar.
A crise financeira da rede se arrastava desde 2018, quando o grupo entrou com pedido de recuperação judicial. Desde então, o processo foi marcado por questionamentos de credores e pedidos de conversão em falência. No fim de 2025, a administradora judicial Laspro Consultores informou ao juízo que constatou o encerramento das atividades sem aviso prévio, após diligências realizadas em endereços da Rua Fernão Dias, em Pinheiros, e da Avenida Angélica, em Higienópolis.
Na ocasião, a empresa alegou que enfrentava dificuldades operacionais agravadas por decisões judiciais anteriores que chegaram a decretar a falência, posteriormente suspensa por liminar de instância superior, e afirmou que não conseguiu retomar integralmente as operações após a lacração das lojas. Segundo pessoas ligadas ao processo, ainda há recurso pendente, mas as atividades permanecem interrompidas há cerca de um mês.
O elevado endividamento é apontado como fator central para o desfecho. Pessoas próximas à companhia estimam cerca de R$ 70 milhões em dívidas extraconcursais, contraídas após o pedido de recuperação judicial. Desse total, aproximadamente R$ 30 milhões estariam relacionados a débitos de aluguel, conforme apuração do Estadão/Broadcast.
A deterioração financeira, segundo relatos de pessoas que acompanharam a trajetória da empresa, antecede a saída do Conjunto Nacional. Desde então, a varejista promoveu sucessivos fechamentos de unidades e tentou reformular seu modelo de negócios, mas não conseguiu reequilibrar as contas.
Crise
A trajetória da Livraria Cultura teve início em 1947, como uma livraria familiar em São Paulo. Ao longo das décadas, a empresa se consolidou como uma das principais redes do país. A partir dos anos 2010, porém, passou a enfrentar queda de receitas e aumento de custos, em meio à retração do mercado editorial, à digitalização do consumo e à concorrência crescente do comércio eletrônico.
Mesmo diante desse cenário, a empresa manteve um plano de expansão e, em 2017, adquiriu a operação brasileira da Fnac. No comércio digital, também foi proprietária da Estante Virtual, posteriormente vendida ao Magazine Luiza, em 2020. A combinação de expansão, retração do setor e dificuldades de capitalização pressionou o caixa da companhia.
Em outubro de 2018, a Cultura ingressou com pedido de recuperação judicial, declarando dívidas próximas de R$ 285 milhões à época. Durante o processo, apresentou aditivos ao plano aprovado pelos credores, mas enfrentou dificuldades no cumprimento das obrigações, além dos impactos adicionais da pandemia de covid‑19, que afetou as vendas nas lojas físicas.
Em fevereiro de 2023, a Justiça paulista decretou a falência após apontar descumprimento do plano e outras irregularidades. A decisão foi alvo de recursos e chegou a ser suspensa temporariamente por liminar. Ainda assim, a sequência de decisões judiciais, restrições operacionais e agravamento financeiro culminou no encerramento definitivo das atividades físicas e digitais da rede.
Fonte: Estadão / Broadcast
