O avanço dos óculos inteligentes com recursos de inteligência artificial está criando novos desafios para a fiscalização de provas e exames acadêmicos. Na Coreia do Sul, o governo anunciou medidas para combater o uso desses dispositivos em fraudes no CSAT, exame nacional utilizado no ingresso às universidades do país.
A proposta prevê que estudantes flagrados utilizando óculos inteligentes para obter respostas durante a avaliação possam ser alvo de investigação criminal. O governo também pretende ampliar de um para até três anos o período em que candidatos envolvidos em fraude ficam impedidos de refazer o exame.
As mudanças ainda dependem de alterações legais. Atualmente, o uso desses aparelhos já é proibido durante o CSAT, e a infração pode resultar na anulação da prova e na suspensão do direito de participar da avaliação no ano seguinte.
Como os óculos inteligentes podem ser usados para colar?
Diferentemente dos óculos convencionais, os modelos inteligentes podem reunir câmera, microfone, alto-falantes e conexão com a internet. Alguns também permitem exibir informações diretamente no campo de visão do usuário.
Em uma situação de fraude, o estudante poderia fotografar uma questão, enviar a imagem para uma ferramenta de inteligência artificial ou para outra pessoa e receber respostas ou orientações por meio do próprio dispositivo.
A principal dificuldade para os fiscais é que muitos desses aparelhos têm aparência semelhante à de armações comuns. Além disso, podem funcionar sem emitir sons perceptíveis e dispensam o uso de celulares durante a consulta.
Como a fiscalização será reforçada
Para identificar possíveis fraudes, o Ministério da Educação sul-coreano planeja ampliar os procedimentos de inspeção nos locais de prova.
A partir da próxima aplicação do CSAT, cada local terá um responsável específico para auxiliar na identificação de óculos inteligentes e outros dispositivos proibidos. Esses profissionais receberão orientações sobre as características dos aparelhos e poderão ser acionados pelos fiscais quando houver suspeita.
O governo também avalia o uso de detectores de radiofrequência capazes de identificar sinais emitidos por dispositivos conectados. A distribuição desses equipamentos poderá começar em 2027, caso os testes indiquem que a tecnologia é adequada.
A medida busca enfrentar uma dificuldade apontada por professores: identificar visualmente os óculos inteligentes nem sempre é simples, principalmente quando os aparelhos têm aparência discreta.
Punições podem chegar à esfera criminal
Além de ampliar o período de suspensão do CSAT, o governo pretende tratar o uso fraudulento desses dispositivos como uma interferência intencional na realização de um exame estatal.
A proposta prevê o encaminhamento de casos às autoridades policiais, com possibilidade de investigação por crimes relacionados à obstrução de funções públicas por meios fraudulentos.
O Ministério da Educação também pretende recomendar que universidades adotem medidas semelhantes em seus próprios processos seletivos e avaliações.
Tecnologia amplia debate sobre segurança nos exames
O caso sul-coreano mostra como a popularização de dispositivos com inteligência artificial pode exigir mudanças nas regras de avaliações acadêmicas.
O desafio não envolve apenas proibir celulares e relógios conectados, mas também identificar aparelhos cada vez menores e mais discretos, capazes de acessar informações e ferramentas digitais durante uma prova.
A discussão também alcança outros países, onde instituições de ensino precisam atualizar protocolos para lidar com o uso de inteligência artificial em atividades avaliativas.
No Brasil, por exemplo, o Enem já estabelece restrições ao uso de aparelhos eletrônicos durante a aplicação das provas. O avanço dos óculos inteligentes acrescenta uma nova questão à fiscalização: como impedir consultas não autorizadas quando o dispositivo pode se parecer com um acessório cotidiano?
