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VITRINE CASTELLO: Entre emoções, traumas e relações, psicóloga Giovanna Ramos aborda os desafios da saúde mental na sociedade contemporânea

(Foto: Divulgação)

Olá, amados!

É com muita satisfação que apresento mais uma edição da Vitrine Castello, espaço do Portal Castello criado para valorizar pessoas, profissionais, trajetórias e histórias que merecem estar em evidência.

Na edição de hoje, a conversa é com a psicóloga Giovanna Ramos, formada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), com formação complementar em Psicanálise. O tema é essencial para a vida contemporânea: saúde mental, emoções, comportamento e relações humanas.

Em uma sociedade marcada pela aceleração, pela cobrança por produtividade e pela dificuldade de acolher as próprias fragilidades, Giovanna fala sobre ansiedade, depressão, experiências da infância, relacionamentos abusivos, parentalidade, luto e autoconhecimento. Uma conversa para refletir sobre a importância de escutar o que sentimos e reconhecer quando precisamos de apoio.

Sejam muito bem-vindos à Vitrine Castello!

🌟 NA VITRINE

GIOVANNA RAMOS

Psicóloga | Saúde mental • Psicanálise • Relações humanas

“Equilíbrio emocional não é a ausência de sofrimento, mas a possibilidade de contar consigo mesmo.”

PERFIL

Formada em Psicologia pela Universidade Federal do Amazonas, Giovanna Ramos possui formação complementar em Psicanálise e trabalha com a escuta clínica como caminho para compreender a subjetividade, os conflitos internos e os padrões que atravessam as relações.

(Foto: Divulgação)

01 | TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Você possui formação em Psicologia pela Universidade Federal do Amazonas e formação complementar em Psicanálise. Como surgiu o interesse pela Psicologia e o que motivou a escolha da abordagem psicanalítica para o trabalho clínico?

GIOVANNA RAMOS — Acredito que, como a maioria dos estudantes, meu interesse surgiu de um fascínio pela subjetividade humana. Desde criança, eu me pergunto o que leva alguém a tomar certas decisões em detrimento de outras. Aquilo que nos torna diferentes uns dos outros sempre foi, para mim, um objeto de curiosidade e de estudo. Ao longo da faculdade, fui me encantando por uma abordagem que acolhe o sofrimento por meio da palavra. Muitas vezes nos sentimos melhor depois de desabafar, ou encontramos a solução de um problema enquanto o contamos para alguém. Existe algo de organizador no ato de falar. Além disso, comecei a perceber que as palavras refletem a forma como vemos o mundo, e que aquilo que se diz e se faz na sessão pode ser um recorte da vida lá fora. O que mais me marcou foi perceber que a relação entre analista e paciente também é uma forma de comunicação. Sem perceber, o paciente costuma levar para a sessão os mesmos modos de se relacionar que aparecem em outras áreas da vida: o medo de decepcionar, a dificuldade de confiar, a expectativa de ser rejeitado, a necessidade de agradar. Quando isso acontece ali, diante de alguém disposto a escutar sem julgar, ganha a chance de ser olhado com calma e colocado em palavras. Foi aí que vi a técnica acontecendo diante dos meus olhos. Às vezes, uma única frase dita na hora certa abre um caminho que o paciente procurava havia anos. Depois de viver uma experiência assim, é difícil deixar de acreditar na cura pela fala.

02 | SAÚDE MENTAL NA ATUALIDADE

Vivemos em uma sociedade acelerada, marcada por cobranças, excesso de  informações e necessidade constante de produtividade. Quais são os principais  impactos desse cenário sobre a saúde mental?

GIOVANNA RAMOS — Acredito que nunca tivemos tanto acesso à informação e nunca estivemos tão conectados. Essa velocidade afeta a forma como nos relacionamos com o mundo e com nós mesmos: fica mais difícil saborear a vida sem cair numa lógica de produtividade constante. Os efeitos aparecem na ansiedade, no cansaço que não passa com o descanso, na sensação de estar sempre atrasado e na dificuldade de simplesmente estar presente, sem uma tarefa a cumprir. Na clínica, é muito comum ver pacientes que tentam preencher todo o tempo da sessão falando e que se frustram quando não encontram nada de ‘útil’ para dizer. A psicanálise recusa essa ideia de utilidade. Muitas vezes, o que importa está nas entrelinhas. Essas entrelinhas são aquilo que dizemos sem perceber que estamos dizendo. Uma palavra trocada, uma lembrança que surge do nada no meio de outro assunto, uma história que voltamos a contar sem saber por quê, uma emoção que aparece desproporcional ao que está sendo narrado. Freud chamou de inconsciente essa parte de nós que fala por caminhos tortos, justamente porque toca em algo que não conseguimos encarar de frente. Muitas vezes, aquilo que nos faz sofrer não está no fato que relatamos, mas no sentido que ele tem para nós, e esse sentido costuma se revelar quando paramos de controlar o discurso. Por isso, a busca ansiosa pelo que falar pode acabar encobrindo a chance de encontrar aquilo que ainda não se sabe e de se aproximar da raiz do sofrimento. Em alguns momentos, o modo como o paciente reage ao silêncio diz mais do que um simples relato dos fatos. Por isso, acredito que reservar cinquenta minutos por semana para sentir, em vez de abafar o sofrimento com distrações, já é uma forma de resistência a uma sociedade acelerada.

03 | ANSIEDADE: QUANDO A PREOCUPAÇÃO ULTRAPASSA OS LIMITES

A ansiedade faz parte da experiência humana, mas pode tornar-se incapacitante.  Como reconhecer a diferença entre uma preocupação cotidiana e um quadro que  precisa de avaliação profissional?

GIOVANNA RAMOS — A preocupação cotidiana tem um motivo claro e se dissolve quando a situação se resolve. Já quando ela muda de objeto o tempo todo, quando um problema se resolve e logo outro ocupa o mesmo lugar, é sinal de que a questão não está nos fatos, mas em algo mais profundo que ainda não encontrou palavras. Outro ponto importante é a repetição. Quando percebemos que estamos sempre tropeçando na mesma pedra, nas mesmas escolhas, nos mesmos tipos de relação, nos mesmos medos, é porque existe ali uma história pedindo para ser escutada. Uma forma simples de pensar é esta: a preocupação comum é algo em que pensamos; o sofrimento que pede ajuda é aquele que passa a pensar por nós. Por isso, acredito que não é preciso esperar uma crise para procurar uma análise. Ela pode começar com uma pergunta, um incômodo, uma vontade de entender por que certas coisas se repetem. Claro que alguns sinais pedem ajuda imediata, como crises de pânico ou pensamentos de se machucar. Mas, de modo geral, o melhor momento para buscar um profissional é quando a gente sente que sozinho já não está conseguindo dar sentido ao que vive.

04 | O QUE O SOFRIMENTO EMOCIONAL REVELA?

Há pessoas que tentam esconder a tristeza, a insegurança e a angústia para  demonstrar força. O que pode acontecer quando alguém passa muito tempo  ignorando ou reprimindo as próprias emoções?

GIOVANNA RAMOS — Acredito que aquilo que não encontra lugar nas palavras acaba encontrando outros caminhos, e o corpo costuma ser um deles. Insônia, dores sem causa aparente, problemas de estômago, tensão constante e outras manifestações psicossomáticas podem ser formas de o corpo pedir ajuda. Muitas vezes, a pessoa sente uma agonia que não consegue nomear, e ‘passar para o corpo’ é uma saída mais primitiva do que conseguir pensar: “estou triste”. Se estamos falando do poder das palavras, vale lembrar que, para identificar uma tristeza, é preciso que ela exista como uma possibilidade. Muita gente cresceu ouvindo que chorar é fraqueza ou que “não tem motivo para ficar assim”, e aprendeu a engolir o que sente antes mesmo de perceber o que é. Quando a emoção não tem permissão para existir, ela não desaparece. Podemos constar que ela volta em forma de irritação, explosões, cansaço, compulsões ou uma sensação de vazio difícil de explicar.

05 | PSICANÁLISE E AUTOCONHECIMENTO

Para quem não conhece a Psicanálise, como você explicaria a contribuição dessa  abordagem para compreender comportamentos, conflitos internos e padrões que se  repetem ao longo da vida?

GIOVANNA RAMOS — A psicanálise, assim como as demais abordagens clínicas da psicologia, não é uma prática de aconselhamento. O analista não diz ao paciente o que ele deve fazer. Durante a sessão, o paciente é convidado a falar livremente sobre tudo o que lhe vem à mente, mesmo aquilo que parece sem importância, sem sentido ou constrangedor. A partir dessa fala, vamos juntos destrinchando o conteúdo até encontrar pistas do que está por trás do sofrimento. Muitas vezes, repetimos padrões sem perceber: escolhemos parceiros parecidos, nos envolvemos nos mesmos conflitos, sabotamos oportunidades no mesmo ponto. Essas repetições costumam estar ligadas a experiências e desejos que não estão totalmente acessíveis à nossa consciência, mas que continuam agindo sobre nossas escolhas. Acredito que, quando percebemos que estamos repetindo um padrão, ganhamos mais possibilidades de ação. Aquilo que antes acontecia de forma automática passa a poder ser pensado e, por isso, escolhido. É como se ampliássemos nosso leque de opções, e isso torna a vida mais rica e menos presa a um mesmo enredo.

06 | DEPRESSÃO E PRECONCEITO

Será que nos dias de hoje ainda existe a ideia de que a depressão é falta de força de  vontade ou de que basta pensar positivamente para superar o sofrimento? Essa  percepção é equivocada e como podemos reconhecer a necessidade de ajuda?

GIOVANNA RAMOS — Acredito que a ideia da depressão como falta de força de vontade está intimamente ligada à lógica da produtividade de que falamos anteriormente. É preciso acreditar que se está bem para continuar trabalhando e produzindo. Mas, em muitos casos, essas estratégias só servem para abafar um sofrimento que continua ali e que não desaparece com pensamento positivo. Ironicamente, isso acaba deixando as pessoas ainda menos produtivas. Além disso, por se tratar de um adoecimento psíquico, muitas pessoas têm dificuldade de reconhecer algo que não pode ser visto a olho nu. A depressão não é fraqueza nem escolha: é uma condição real, que merece cuidado como qualquer outra. Por isso, acredito que precisamos continuar falando sobre saúde mental, para oferecer às pessoas um vocabulário que as ajude a perceber que estão sofrendo e que não precisam atravessar isso sozinhas. Alguns sinais merecem atenção: uma tristeza ou um vazio que persistem por semanas, a perda de interesse por coisas que antes davam prazer, alterações no sono e no apetite, cansaço constante, isolamento e a sensação de que nada vai melhorar. Afinal, é difícil identificar algo que não tem cheiro, cor ou imagem quando só se tem a si mesmo como testemunha.

07 | A INFLUÊNCIA DAS EXPERIÊNCIAS PASSADAS

De que maneira experiências vividas na infância e na adolescência podem influenciar a autoestima, as escolhas afetivas e a forma como nos relacionamos na vida adulta? Algum exemplo para os nossos internautas?

GIOVANNA RAMOS — Quando nascemos, a família é o nosso primeiro contato com a sociedade, com a linguagem e com a cultura. Por isso, as relações que formamos com essas pessoas servem de modelo para a forma como aprendemos a amar e a ser amados. Essas marcas, em sua maioria, permanecem inconscientes. Muitas vezes, as pessoas chegam à análise se perguntando: ‘Por que eu sempre me envolvo com o mesmo tipo de pessoa?’. Isso acontece porque, na infância, construímos fantasias muito fortes sobre o que precisamos ser para merecer amor. Um exemplo: uma criança ouve o pai elogiar o filho da vizinha, que era muito inteligente e já sabia a tabuada de cor. Por mais banal que pareça, essa experiência pode se alojar no inconsciente e fazê-la acreditar que é preciso ser inteligente para ser amada. No futuro, essa pessoa pode sofrer intensamente ao tirar uma nota baixa ou não passar no vestibular, como se aquilo dissesse algo sobre o seu valor. Nos relacionamentos, pode buscar parceiros que precisa impressionar o tempo todo, sempre com medo de não estar à altura. Lacan disse: “toda demanda é uma demanda de amor”. As fantasias que criamos moldam nossa relação com o mundo. O trabalho da análise é ajudar a identificá-las, para que a pessoa possa se posicionar de outra forma diante do próprio sofrimento e retomar a responsabilidade pela própria vida.

08 | RELACIONAMENTOS E PADRÕES DE COMPORTAMENTO

Por que algumas pessoas parecem repetir os mesmos padrões nos relacionamentos,  mesmo quando as experiências anteriores causaram sofrimento? Como a  psicoterapia pode ajudar a compreender esse processo?

GIOVANNA RAMOS — Como disse anteriormente, é preciso identificar qual fantasia está em jogo nesse processo de repetição. Isso não significa que alguém goste de sofrer, mas que existe algum tipo de satisfação, ainda que paradoxal, em repetir. O conhecido, mesmo quando dói, costuma parecer mais seguro do que o desconhecido. Muitas vezes, a pessoa está tentando reescrever uma história antiga, como se, ao escolher alguém parecido com quem a feriu, pudesse finalmente ter um final diferente. Eu acredito que esse seja o comportamento mais humano de todos: repetir um padrão nocivo esperando que, algum dia, ele dê certo. A análise ajuda a tornar visível aquilo que antes acontecia de forma automática. Muitas vezes, o próprio padrão aparece na relação com o analista, e ali pode ser olhado com calma. Esse processo pode envolver um luto, porque desmontar uma fantasia é abrir mão de uma promessa antiga. Mesmo assim, é através do processo analítico que torna-se possível lidar com o mundo de uma forma mais real e fazer escolhas que não sejam apenas a repetição do passado.

09 | VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA E RELAÇÕES ABUSIVAS

Quais sinais de violência psicológica costumam passar despercebidos e quais  caminhos de apoio podem ser buscados por quem enfrenta essa situação?

GIOVANNA RAMOS — A violência psicológica costuma passar despercebida justamente porque não deixa marcas visíveis e muitas vezes se disfarça de cuidado ou de amor. As críticas constantes, às vezes em tom de brincadeira; o afastamento gradual de amigos e da família; o controle do celular, das roupas, do dinheiro ou dos horários; o ciúme apresentado como prova de amor; o silêncio usado como punição; e, principalmente, a sensação de estar sempre ‘pisando em ovos’ são alguns sinais que merecem ser falados para permitir que as pessoas consigam identificar esse tipo de violência. Outro sinal importante é quando a pessoa começa a duvidar da própria memória e da própria percepção, porque o outro insiste que aquilo não aconteceu ou que ela está exagerando. Em alguns casos, esse tipo de relação alterna momentos de carinho intenso com momentos de humilhação, por isso, não é raro que a pessoa sinta culpa ou vergonha por permanecer. A terapia pode ser um espaço importante para reconstruir a confiança na própria percepção, que costuma ser uma das maiores perdas nesse tipo de relação. Mas, acho importante lembrar que o processo terapêutico não é a única via de cuidado e que, muitas vezes, a realidade material dos fatos atravessa a clínica e nos faz tomar decisões que vão além da teoria. Portanto, vale dizer que a violência psicológica contra a mulher é reconhecida pela Lei Maria da Penha e é crime. Quem vive essa situação pode buscar a Central de Atendimento à Mulher, pelo Ligue 180, e, em Manaus, os serviços da rede estadual de atendimento à mulher, que oferecem acolhimento psicológico, social e jurídico. Em situações de risco imediato, o caminho é ligar para o 190.

10 | ORIENTAÇÃO PARENTAL E DESENVOLVIMENTO DOS FILHOS

Como educar sem recorrer ao medo, à ameaça ou à punição excessiva? Qual é a  importância dos limites e do acolhimento no desenvolvimento emocional de crianças  e adolescentes?

GIOVANNA RAMOS — Acredito que o primeiro passo é perceber que as crianças são pessoas, com pensamentos e vontades próprias, e não apenas uma extensão dos pais. Na nossa sociedade acelerada, dos pais, e muitas vezes especialmente das mães, se exige um desempenho impecável em todas as áreas da vida, uma fantasia impossível de realizar. E as crianças, por serem frequentemente vistas como propriedade dos pais, acabam recebendo boa parte desse estresse. Não se trata de demonizar os pais. Aliás, pais que reconhecem seus erros e pedem ajuda dificilmente são maus pais. Mas é importante lembrar que a criança está experimentando o mundo pela primeira vez, e ter um pirulito negado na fila do caixa pode ser a maior dor que ela já viveu até ali. Talvez a capacidade de lidar com a frustração seja uma das maiores chaves da vida. Boa parte da teoria psicanalítica se dedica a pensar como lidamos com os limites colocados na infância pelos pais, pela sociedade e pelas leis. Os limites são essenciais para esse aprendizado. Crianças que erram, recebem limites e são acolhidas tendem a se tornar adultos mais confiantes, que vivem com a certeza de que são amados e de que merecem existir. Já crianças que são punidas de forma excessiva e não são acolhidas em sua dor costumam colocar o próprio valor nas mãos dos outros. Na prática, isso significa manter o limite com firmeza, mas sem humilhação nem ameaça: explicar o porquê do “não”, nomear o que a criança está sentindo (“eu sei que você ficou triste”) e suportar o choro sem ceder e sem castigar. Enquanto o limite protege, o medo apenas silencia. No livro Tudo é linguagem, Françoise Dolto conta um episódio em que seu filho pede um avião de brinquedo. Ela conversa com ele e explica por que não é possível comprá-lo naquele momento. Dolto defendia a inteligência das crianças e a importância de não mentir para elas, estimulando seu vocabulário e sua percepção do mundo. Apesar de algum choro, ao chegar em casa o menino decide fazer um avião de papel. Lidando com a frustração, ele encontrou uma solução criativa. Talvez esse exemplo pareça distante das nossas crianças de hoje, cercadas de telas. Mas sempre achei que ele mostra muito bem a capacidade criativa que pode ser despertada numa criança diante da frustração.

11 | ADOLESCÊNCIA E SAÚDE MENTAL

A adolescência envolve transformações, conflitos de identidade, pressão social e  busca por pertencimento. Como pais e responsáveis podem distinguir  comportamentos próprios dessa fase de sinais de sofrimento emocional que  merecem atenção?

GIOVANNA RAMOS — Assim como a infância é o primeiro contato com o pertencimento a uma família, a adolescência é o momento de se desprender dela e buscar outras referências e visões de mundo. Winnicott dizia que a mãe não precisa ser perfeita, mas suficientemente boa: aquela que acolhe e, aos poucos, falha de forma suportável, permitindo que a criança aprenda a lidar com a frustração. É essa progressão que permite ao jovem formar uma personalidade própria, que não dependa inteiramente dos pais. O sinal de alerta aparece quando o afastamento não é só dos pais, mas de tudo. O movimento típico da adolescência afasta o jovem da família, mas o aproxima de outras pessoas e interesses; o sofrimento o afasta de tudo. Vale prestar atenção quando há isolamento também dos amigos, perda de interesse por coisas que antes davam prazer, queda brusca no rendimento escolar, mudanças marcantes no sono ou na alimentação, irritabilidade ou tristeza que duram semanas, falas de desesperança ou sinais de que ele está se machucando. Permitir espaço para descoberta não significa deixar o filho sozinho. ‘Falhar de forma suportável’ é permitir que o adolescente descubra o mundo por conta própria, mantendo limites suficientes para que ele não se sinta desamparado e a certeza de que existe em casa um espaço para acolher as dores do crescimento. Portanto, para que um jovem consiga se afastar com segurança, ele precisa saber que tem para onde voltar.

12 | LUTO, PERDAS E RECOMEÇOS

Perder alguém, terminar um relacionamento ou enfrentar uma mudança importante  pode abalar a identidade e a rotina. Existe uma maneira saudável de atravessar o  luto? Quando o sofrimento indica que é importante procurar ajuda profissional?

GIOVANNA RAMOS — Sofrer faz parte da vida, e nem todo sofrimento precisa de tratamento. Tristeza depois de uma perda ou angústia diante de uma mudança são reações esperadas. O sinal de que é importante buscar ajuda aparece quando o sofrimento deixa de ser algo que atravessamos e passa a ser algo que nos paralisa. Diante de uma perda, a realidade nos mostra que aquela pessoa não está mais aqui, mas não conseguimos simplesmente nos desligar dela. Por isso, aos poucos, vamos revisitando cada lembrança, cada expectativa e cada hábito que dividíamos com quem se foi. É um processo lento e doloroso, e é natural que, durante esse tempo, o mundo perca um pouco da cor. Mas acredito que o luto não serve para apagar quem perdemos. Com o tempo, a ausência vai cedendo espaço, e a relação com quem partiu ganha outra forma. Aquela pessoa continua presente de um jeito mais silencioso, no modo como enxergamos o mundo e em tudo o que aprendemos a amar por causa dela. É isso que nos permite voltar a nos interessar pela vida e a criar novos laços, sem precisar deixar quem amamos para trás. Outro dia, assisti uma série trouxe algo interessante sobre essa ideia: o que é o luto, senão o amor que persiste? Por isso, muitas vezes sofremos mais ao sufocar a memória de alguém dentro de nós do que ao falar sobre essa pessoa. Acredito que falar de quem já se foi, mas continua vivendo em nós, é uma forma de garantir que ela não seja perdida mais uma vez.

13 | PSICOTERAPIA: PARA QUEM E EM QUE MOMENTO?

Há pessoas que só procuram um psicólogo(a) quando sentem que chegaram ao  limite. A psicoterapia também pode ser uma ferramenta de prevenção,  autoconhecimento e desenvolvimento pessoal, certo?

GIOVANNA RAMOS — Sim! A psicoterapia pode ser procurada em momentos de crise, mas também como prevenção, autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. Não é preciso chegar ao limite para buscar um espaço de escuta. Gosto muito da forma como o psicanalista Cláudio Castelo Filho responde à pergunta ‘para que serve a psicanálise?’. Para ele, ela serve basicamente para ‘apresentar uma pessoa a ela mesma’, isto é, àquilo que ela realmente é e de que nunca poderá se separar, por mais que tente. Quando alguém consegue reconhecer e respeitar quem de fato é, pode usar os recursos e as capacidades que realmente tem, em vez de seguir se cobrando por aquilo que não pode ser. Acredito que esse é um dos maiores ganhos de uma análise: deixar de lutar contra si mesmo e passar a construir a vida a partir de quem se é. E esse caminho pode começar a qualquer momento, não só quando a dor já ficou insuportável.

14 | SAÚDE MENTAL E RESPONSABILIDADE COLETIVA

O cuidado emocional costuma ser tratado como uma responsabilidade  exclusivamente individual. Qual é o papel da família, das escolas, das empresas e da  sociedade na promoção da saúde mental?

GIOVANNA RAMOS — Como disse anteriormente, falar sobre saúde mental é essencial para que as pessoas tenham o vocabulário necessário para reconhecer quando estão sofrendo e quando esse sofrimento começa a limitar a vida. A família é o primeiro lugar onde aprendemos se nossas emoções têm permissão para existir. Uma casa em que é possível dizer “estou triste” ou “estou com medo” sem ser ridicularizado já é um fator de proteção. A escola, por sua vez, convive diariamente com crianças e adolescentes e pode ser o primeiro espaço a perceber sinais de sofrimento, além de ter um papel fundamental no combate ao bullying e no acolhimento das diferenças. As empresas também têm grande responsabilidade. Jornadas exaustivas, metas inalcançáveis e ambientes de pressão constante adoecem, e não basta oferecer palestras sobre bem-estar se a rotina continua sendo a mesma. Inclusive, a legislação trabalhista brasileira passou a exigir que as empresas considerem os riscos psicossociais em sua gestão de saúde e segurança. Por fim, a sociedade precisa garantir acesso ao cuidado. Políticas públicas, serviços como os CAPS e o fortalecimento da rede de atendimento pelo SUS são fundamentais, porque ainda há muitas pessoas que reconhecem que precisam de ajuda, mas não têm onde encontrá-la. Se enxergarmos o sofrimento como algo individual, pertencente somente à biologia de cada sujeito, nada poderemos fazer em relação aos fatores coletivos que adoecem a população.

15 | UMA REFLEXÃO PARA O PÚBLICO

Para encerrar, gostaria que você deixasse uma reflexão: o que uma pessoa precisa  compreender sobre si mesma para começar a transformar comportamentos, construir  relações mais saudáveis e viver com maior equilíbrio emocional?

GIOVANNA RAMOS — Acredito que o primeiro passo é abrir mão da ideia de que precisamos nos tornar outra pessoa. Citando novamente o psicanalista Cláudio Castelo Filho, em “A psicanálise do vir a ser”, ele mostra que boa parte do sofrimento que chega à clínica vem justamente da dificuldade de reconhecer e tolerar quem somos de fato. Passamos a vida exigindo de nós mesmos aquilo que não podemos ser, e essa exigência nos afasta do que realmente sentimos e desejamos. Ele também lembra que o desenvolvimento emocional está ligado à capacidade de suportar frustrações, angústias e dificuldades. Quando conseguimos sentir o que sentimos, sem fugir nem distorcer a realidade para evitar o desconforto, começamos a enxergar os fatos com mais clareza e a fazer escolhas mais condizentes com quem somos. E isso tem consequências diretas nas nossas relações. Ninguém consegue oferecer aos outros aquilo que não tem para si mesmo. Quem aprende a se respeitar, com seus limites e possibilidades, também passa a respeitar o outro como ele é, sem tentar moldá-lo às próprias expectativas. Portanto, equilíbrio emocional não é a ausência de sofrimento, mas a possibilidade de contar consigo mesmo. E isso começa quando deixamos de lutar contra quem somos e passamos a nos conhecer de verdade.

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