O Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de uma estudante de Direito de 22 anos chamou atenção nas redes sociais antes mesmo de muita gente conhecer o conteúdo da pesquisa. O motivo foi o título da monografia: “Antes Elize do que Eliza”.
A autora é Clara Souza, que está se formando em Direito pela Universidade Estadual Vale do Acaraú, em Sobral, no Ceará. Uma foto registrada no dia da defesa do trabalho viralizou no Instagram, TikTok e X e acabou sendo compartilhada por diversos perfis.
O título faz referência a dois casos criminais que tiveram grande repercussão no Brasil: o de Elize Matsunaga, condenada pela morte e esquartejamento do marido, Marcos Matsunaga, em 2012, e o de Eliza Samudio, assassinada em 2010 em um crime pelo qual o goleiro Bruno foi condenado.
A frase “Antes Elize do que Eliza” é utilizada nas redes sociais em discussões sobre a forma como o Estado e a sociedade lidam com mulheres vítimas de violência. Em geral, quem utiliza a expressão argumenta que Eliza Samudio teria buscado ajuda das autoridades e pedido medidas protetivas antes de ser assassinada, enquanto Elize Matsunaga, diante de uma relação marcada por conflitos e ameaças, reagiu de maneira extrema e acabou sobrevivendo, embora tenha sido presa e condenada.
Foi justamente esse fenômeno que Clara decidiu investigar em sua monografia, que tem mais de 130 páginas. Segundo a estudante, a frase do título não representa uma opinião pessoal, mas uma expressão que passou a ser repetida nas redes sociais.
“A frase sobre Elize e Eliza está entre aspas [no título]. Não é uma fala minha, não fui eu que disse isso. É algo que vem sendo repetido no Tiktok com frequência”, diz. “Analiso isso como um fenômeno social, um sintoma de uma sociedade em que as mulheres se sentem desprotegidas. Em nenhum momento, justifico o crime cometido pela Elize.”
A pesquisa analisa o que Clara chama de “escandalização midiática” do processo penal, fenômeno em que casos criminais deixam de ser tratados apenas como questões jurídicas e passam a ser apresentados como uma espécie de espetáculo para consumo do público.
Segundo a pesquisa, parte da imprensa e das redes sociais acaba promovendo um julgamento paralelo, no qual questões jurídicas complexas e garantias fundamentais, como a presunção de inocência, perdem espaço para narrativas simplificadas de heróis e vilões.
A estudante também analisa o conceito de “vítima ideal” e como ele pode influenciar a forma como mulheres são retratadas pela sociedade e pelo sistema de justiça. Segundo a pesquisa, existe uma expectativa de que a vítima apresente determinados comportamentos considerados socialmente adequados para ser vista como digna de crédito ou de compaixão.
Quando não corresponde a esse padrão, a mulher pode, de acordo com a análise, sofrer uma espécie de dupla condenação: uma prevista pela Justiça e outra imposta pela opinião pública.
Comparação entre Eliza e Elize
Um dos capítulos do trabalho compara as trajetórias de Eliza Samudio e Elize Matsunaga. Apesar de uma ser vítima e a outra ré em processos completamente diferentes, Clara identifica pontos em comum nas histórias das duas.
As duas tinham origens humildes e saíram do interior do Paraná em busca de melhores condições de vida. Também tiveram trajetórias relacionadas ao mercado do sexo, aspecto que, segundo a pesquisa, foi utilizado para criar rótulos e julgamentos sobre suas personalidades.
Outro ponto analisado é a relação de ambas com homens ricos e influentes. Para Clara, esse fator contribuiu para que parte do debate público deixasse de se concentrar na violência e passasse a questionar as supostas ambições e escolhas pessoais das mulheres.
Para desenvolver a pesquisa, a estudante utilizou referências de estudiosos como Heleieth Saffioti, na análise da violência estrutural e do patriarcado, e Guy Debord, a partir do conceito de sociedade do espetáculo.
O trabalho foi aprovado com nota máxima pela banca examinadora, que também sugeriu que a pesquisa seja transformada em um projeto de mestrado.
Atualmente, Clara trabalha na assessoria jurídica da Defensoria Pública do Ceará, justamente em um núcleo voltado ao enfrentamento da violência doméstica.
A repercussão do TCC também fez com que a estudante recebesse mensagens de mulheres de diferentes partes do país que tiveram contato com a pesquisa.
“Recebi muitas mensagens de mulheres de todos os cantos do Brasil que leram a pesquisa, que gostaram, que acham importante que esse debate seja cada vez mais espalhado. Isso é gratificante para mim”, diz.
