Nos últimos meses, episódios envolvendo investigações, decisões da Justiça Eleitoral, conflitos dentro de partidos, declarações de patrimônio e antigas obras públicas passaram a integrar o debate eleitoral. Alguns casos ainda estão em investigação ou dependem de decisões definitivas; outros ganharam espaço no confronto político e passaram a ser usados pelos adversários para questionar seus concorrentes.
Com sete candidaturas registradas, Omar Aziz (PSD) aparece na liderança da pesquisa mais recente da DMP, divulgada nesta segunda-feira (17), com 33,7% das intenções de voto. Maria do Carmo (PL) aparece com 20,6%, Roberto Cidade (União Brasil) com 18,8% e David Almeida (Avante) com 16,3%.
Outros levantamentos mostram uma disputa mais equilibrada entre os candidatos que aparecem na sequência de Omar. Na pesquisa DMP realizada entre 1º e 2 de julho, Omar tinha 33,9%, seguido por David Almeida, com 19,8%, Roberto Cidade, com 19,2%, e Maria do Carmo, com 18,3%.
No levantamento do Viva Voz, realizado entre 7 e 12 de julho, Omar apareceu com 25,7%, Maria do Carmo com 23,3%, David Almeida com 19,5% e Roberto Cidade com 15,6%. Já a pesquisa mais recente do Projeta apontou Omar com 27%, Roberto Cidade com 23,4%, Maria do Carmo com 16,8% e David Almeida com 17%.
A diferença entre os nomes que aparecem na sequência mantém aberta a disputa pelo segundo lugar. Mas os números são apenas uma parte do tabuleiro. Por trás deles está uma sucessão de episódios que envolve antigos aliados, disputas internas, investigações, decisões judiciais e embates que passaram a alimentar a própria campanha.
Veja alguns dos principais fatos que passaram a fazer parte dessa disputa.
David Almeida: investigação eleitoral entra no radar da campanha
Antes de chegar oficialmente à disputa pelo Governo do Amazonas, o ex-prefeito de Manaus e candidato David Almeida (Avante) já vinha enfrentando questionamentos relacionados à eleição municipal de 2024.
Em julho deste ano, o Ministério Público Eleitoral instaurou um Procedimento de Investigação Criminal para apurar uma possível prática de corrupção eleitoral.
A investigação teve origem em uma denúncia apresentada pela Instituição Indígena do Povo Kokama Dois Irmãos. Segundo a portaria do MPE, a denúncia relata uma suposta promessa de regularização de um terreno localizado na Avenida das Flores em troca de votos nas eleições de 2024.
O procedimento apura possível prática do crime previsto no artigo 299 do Código Eleitoral, que trata da corrupção eleitoral. O MPE estabeleceu prazo inicial de 90 dias para a investigação, podendo haver prorrogação caso novas diligências sejam necessárias.

A investigação ainda não representa condenação ou comprovação de irregularidade. O procedimento poderá ser arquivado ou resultar em eventual denúncia, caso o Ministério Público encontre elementos suficientes.
David Almeida negou qualquer tentativa ou prática de crime eleitoral e afirmou que a abertura do procedimento representa uma etapa de apuração da denúncia.
Outro inquérito da PF também envolve a eleição de 2024
A investigação do MPE não é o único episódio relacionado à eleição municipal de 2024 que entrou no radar de David Almeida.
A Polícia Federal também investiga uma possível compra de votos durante o segundo turno daquele pleito. O caso teve início após uma operação que resultou na prisão em flagrante de pastores ligados à Igreja Pentecostal Unida do Brasil e na apreensão de dinheiro em espécie.
Segundo os elementos reunidos no inquérito, um dos pastores teria relatado o recebimento de R$ 38 mil de uma pessoa ligada à campanha para distribuição entre lideranças religiosas. A PF também apreendeu R$ 21 mil em espécie e envelopes contendo R$ 200.
David Almeida está entre os investigados, mas a investigação não representa condenação.
Justiça Eleitoral também entra no caminho de David
Outro episódio ocorreu durante a pré-campanha. O Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas determinou, em decisão liminar, a retirada de uma publicação de David Almeida das redes sociais por possível propaganda eleitoral antecipada.
A decisão considerou que expressões utilizadas pelo então pré-candidato, como “com a sua ajuda nós vamos fazer” e “vamos à luta, vamos à vitória”, poderiam ultrapassar os limites da pré-campanha.
A decisão é provisória e ainda depende do andamento do processo.
Do “somos aliados” à disputa pelo Governo: a virada de Omar Aziz e David Almeida
Se os episódios envolvendo David começaram a ser acumulados antes da disputa estadual, a principal mudança política do cenário veio da ruptura entre ele e Omar Aziz.
Os dois estiveram juntos no palanque da eleição municipal de 2024. Omar apoiou a reeleição de David para a Prefeitura de Manaus, enquanto o grupo político de David mantinha alinhamento com o senador para a disputa estadual.
A aproximação chegou a avançar para a composição da própria chapa. Fernanda Aryel Almeida, filha de David, foi cotada para ser vice de Omar na disputa pelo Governo do Amazonas. A possibilidade mostrava que o acordo entre os dois grupos ia além do apoio eleitoral e previa espaço direto na composição de uma eventual chapa.
Com a mudança de planos e a entrada de David na disputa pelo mesmo cargo, porém, esse desenho deixou de existir. Fernanda acabou seguindo outro caminho dentro do grupo político do pai e passou a ser trabalhada como candidata a deputada federal pelo Avante.
O cenário mudou quando os dois decidiram concorrer ao Governo do Amazonas.
O que antes era uma aliança passou a ser uma disputa direta pelo mesmo cargo. Omar tenta consolidar sua liderança no Estado, enquanto David busca levar para a eleição estadual a força política construída na capital.
Roberto Cidade: patrimônio declarado entra no debate eleitoral
Enquanto o conflito entre Omar e David redesenhava parte do cenário, Roberto Cidade também passou a enfrentar questionamentos políticos relacionados à sua declaração de bens.
O governador e candidato à reeleição declarou R$ 4.285.400,80 em patrimônio à Justiça Eleitoral.
A relação inclui imóveis, terrenos, dinheiro em espécie, investimentos e aplicações financeiras.
Entre os valores declarados está um CDB que passou de R$ 64,2 mil em 2022 para R$ 158,3 mil em 2026. O dinheiro em espécie declarado também aumentou, de R$ 80 mil para R$ 150 mil.
A declaração patrimonial não indica, por si só, qualquer irregularidade. Os valores são informações apresentadas pelo candidato à Justiça Eleitoral.

Maria do Carmo: a disputa também acontece dentro do PL
Maria do Carmo entrou na eleição tentando se apresentar como alternativa aos grupos tradicionais da política amazonense. Mas, ao longo da pré-campanha, também enfrentou conflitos dentro do próprio partido.
Um dos principais episódios envolveu o deputado estadual Delegado Péricles, vice-presidente estadual do PL.
A discussão começou após uma publicação de um veículo ligado ao grupo político de Maria do Carmo sobre uma PEC envolvendo recursos do Fundo de Apoio às Micro e Pequenas Empresas.
Péricles contestou o conteúdo publicado e acusou o veículo de divulgar informação falsa ou tendenciosa. Maria rebateu as críticas, e o episódio expôs uma disputa interna na legenda.
O conflito ganhou dimensão eleitoral porque aconteceu dentro do partido que sustenta a candidatura de Maria ao Governo.

Maria do Carmo x Roberto Cidade: outro confronto no tabuleiro
Fora do próprio partido, Maria do Carmo também passou a direcionar críticas ao governador Roberto Cidade.
A candidata passou a questionar medidas anunciadas pela administração estadual e chegou a classificar Cidade como “político ioiô”, em referência a decisões que, segundo ela, são anunciadas e posteriormente revistas.
A disputa entre os dois também alcançou integrantes do PL que mantiveram aproximação com o grupo de Cidade, gerando cobranças sobre a unidade da legenda.

Omar Aziz e a volta da Cidade Universitária
Enquanto os adversários exploram episódios de seus grupos políticos, Omar Aziz também voltou a colocar uma obra de seu período como governador no centro do debate eleitoral.
A Cidade Universitária da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), em Iranduba, começou a ser implantada durante o governo de Omar, em 2012.
O projeto teve orçamento inicial estimado em cerca de R$ 300 milhões e recebeu aproximadamente R$ 100 milhões em investimentos antes de ser paralisado.
Agora, candidato ao Governo, Omar promete retomar as obras e transformar o complexo em um polo de formação voltado à inteligência artificial e às novas tecnologias.
A proposta, ao mesmo tempo em que apresenta um novo destino para a estrutura abandonada, também resgata uma obra iniciada durante o próprio governo do senador e que permaneceu inacabada.
O projeto, portanto, volta ao debate eleitoral acompanhado de duas perguntas: quanto já foi gasto e quanto será necessário para concluí-lo?

Daciolo entra no jogo
O que dizem os eleitores?
Além das pesquisas eleitorais, um levantamento realizado também buscou entender como participantes percebem o comportamento dos candidatos durante a disputa pelo Governo do Amazonas.
Entre as respostas, aparecem opiniões diferentes sobre o peso dos ataques entre os candidatos. Para a psicopedagoga Ítala de Paula, que participou do levantamento, as trocas de acusações não influenciam sua escolha. Ela afirmou preferir candidatos que apresentem propostas de melhorias para a população e considerou “ridículas” as brigas políticas.
Já a professora de reforço e apoio escolar Ariana de Araújo Lima afirmou que os ataques influenciam seu voto e defendeu que os candidatos apresentem propostas para que o eleitor possa conhecer as áreas em que pretendem atuar e suas prioridades de governo.
Ariana também afirmou que procura verificar sempre se as acusações feitas pelos candidatos são verdadeiras. Para ela, as brigas políticas diminuem a confiança nos concorrentes, porque “chamam atenção das pessoas que querem confusão”. Na avaliação dela, os candidatos estão mais preocupados com ataques pessoais do que em discutir os problemas do Amazonas.
Sobre os debates, Ariana considera tanto a presença quanto a ausência dos candidatos relevantes. Segundo ela, a participação permite avaliar as intenções e a postura dos concorrentes, enquanto a ausência impede o eleitor de analisar diretamente a conduta do candidato.
As duas participantes também destacaram a importância de analisar o histórico dos políticos antes da escolha. Ariana defendeu que o eleitor observe o que cada candidato já realizou enquanto figura pública.
O levantamento foi realizado com 34 alunos e reúne percepções individuais dos participantes. Não se trata de uma pesquisa eleitoral nem representa estatisticamente a opinião do eleitorado do Amazonas.


