Ex-banqueiro alegou ter negociado pagamentos ligados ao Instituto Lula em troca de acesso a fundos de pensão; presidente nega ter solicitado ou recebido vantagens financeiras
A divulgação de relatos atribuídos a Daniel Vorcaro sobre supostos pagamentos ligados a um documentário sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou novas manifestações políticas nesta quinta-feira (8). Segundo a revista Veja, o ex-banqueiro afirmou ter negociado um repasse de aproximadamente R$ 30 milhões em dinheiro vivo relacionado ao filme e ao Instituto Lula, em tratativas que envolveriam o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto.
As declarações teriam sido apresentadas em documentos e gravações anexados a uma proposta de colaboração premiada. A Polícia Federal, porém, rejeitou a delação por considerar que faltavam elementos mínimos para dar credibilidade ao relato, avaliação que, segundo informações da CNN Brasil, também foi feita pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
O que Vorcaro teria relatado
De acordo com a reportagem da Veja, Vorcaro afirmou que seu então sócio no Banco Master, Augusto Lima, teria articulado uma aproximação com Vaccari por meio de interlocutores ligados ao PT da Bahia. O objetivo, segundo o relato, seria facilitar o credenciamento do banco para operar com fundos de previdência de servidores públicos.
Entre as instituições citadas estão a Previ, vinculada ao Banco do Brasil, além de fundos relacionados à Caixa Econômica Federal, à Petrobras e aos Correios.
No material reproduzido pela revista, Vorcaro afirma que teria sido proposto um pagamento de cerca de R$ 30 milhões em espécie para custear despesas de um documentário sobre Lula produzido no exterior, além de outros valores destinados ao Instituto Lula.
O ex-banqueiro também teria mencionado uma suposta cobrança de 10% sobre recursos que o banco conseguisse captar junto aos fundos de pensão. A reportagem cita estimativas de R$ 1 bilhão para o PT e R$ 9 bilhões para o Master, cifras que fazem parte das declarações atribuídas a Vorcaro e não devem ser interpretadas como valores comprovadamente pagos.
Gravações e mensagens citam articulações políticas
A reportagem também apresenta trechos de áudios e mensagens que, segundo a publicação, foram obtidos durante a apuração. Em uma das gravações, Vorcaro teria mencionado pagamentos relacionados ao Instituto Lula e ao documentário, além de diferenciar esse suposto repasse do patrocínio ao filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro (PL).
O material também cita o senador Jaques Wagner (PT-BA), o ministro Alexandre Padilha e o então secretário-executivo da Secretaria de Relações Institucionais, Olavo Noleto. Segundo o relato atribuído a Vorcaro, contatos com esses interlocutores teriam sido usados para aproximá-lo de dirigentes de fundos de previdência.
Mensagens reproduzidas pela Veja mencionam reuniões, contatos com representantes dos fundos e tentativas de avançar nas negociações. A publicação afirma que o Banco Master entrou, em abril de 2024, na lista de instituições autorizadas a receber recursos de fundos de previdência estatais.
A coincidência entre a data citada e as conversas descritas, contudo, não comprova, por si só, que houve pagamento de propina ou que a autorização tenha sido concedida em troca de vantagens.
PF considerou insuficientes os elementos apresentados
A Polícia Federal informou à CNN Brasil que rejeitou a proposta de delação por ausência de elementos mínimos capazes de dar credibilidade às declarações. A avaliação atribuída à corporação e à PGR é um ponto central do caso, já que os relatos divulgados não foram validados por meio de um acordo de colaboração premiada.
Segundo a reportagem da Veja, a defesa de Vorcaro argumentou que teria mensagens, registros de pessoas que retiraram dinheiro em espécie e informações sobre locais utilizados nas supostas entregas. A existência desses materiais, conforme descrita pela defesa, não significa que o conteúdo tenha sido considerado suficiente pelos investigadores.
Após a publicação, o grupo jurídico Prerrogativas anunciou que pretende pedir à Polícia Federal a abertura de investigação para apurar a possibilidade de falso depoimento. O grupo também contestou a versão sobre o financiamento do documentário. O presidente do PT, Edinho Silva, classificou as declarações como politicamente motivadas. Essas manifestações representam a reação de aliados do governo à reportagem e também não substituem a apuração dos fatos.
Lula e Padilha negam envolvimento
Procurado pela Veja, Lula declarou que “jamais solicitou ou recebeu qualquer vantagem financeira nem autorizou terceiros a receber recursos de Vorcaro em seu nome”.
Alexandre Padilha também negou relação com o ex-banqueiro. Olavo Noleto informou à CNN Brasil que não iria se manifestar. A emissora afirmou que procurou o Palácio do Planalto, o Instituto Lula, a campanha presidencial e outros nomes citados no material.
Até o momento, as alegações atribuídas a Vorcaro não foram apresentadas como fatos comprovados por uma delação aceita pelas autoridades. A rejeição da proposta pela PF, por sua vez, indica que os elementos apresentados não foram considerados suficientes para sustentar o acordo, mas não equivale, isoladamente, a uma conclusão judicial sobre cada uma das afirmações divulgadas.
*Com informações Veja e CNN
